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Agartha

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Shivaria Agarttha ou a chegada de Estêvão Cacella, de Nuno Afonso (2007)

Agartha, Agarttha, Agharti, Agarthi, Agharta ou Asgartha é uma suposta cidade desaparecida na Índia em um passado remoto ou um suposto reino secreto, concebido como subterrâneo e ainda hoje instalado em uma rede de túneis e cavernas sob o Himalaia, ou ainda todo um mundo subterrâneo instalado no interior da Terra, que seria oca.

Ainda que os ocultistas o considerem um antigo mito oriental, esse nome foi citado pela primeira vez em 1873, pelo escritor francês Louis Jacolliot (que escrevia Asgartha, provavelmente uma modificação de Asgard, o nome da morada mítica dos deuses nórdicos). Citada pelo aventureiro polonês Ferdynand Ossendowski, ganhou um papel importante nas obras dos ocultistas Saint-Yves d'Alveydre e René Guénon.

Jacolliot Editar

Louis Jacolliot, magistrado da colônia francesa de Chandernagor, escreveu 21 livros e em um deles, O Filho de Deus (Le Fils de Dieu, 1873), o segundo de uma trilogia, conta como fez amizade com os brâmanes locais, que o ajudaram a ler antigos textos como o "Livro dos Zodíacos Históricos" no Pagode de Villenoor, levaram-no para assistir a uma orgia shaivita em um templo subterrâneo e lhe contaram a história de Asgartha.

A Asgartha de Jacolliot lembra a "Cidade do Sol" de Tommaso Campanella. Era a sede do "Brahmatma", sumo-sacerdote dos brâmanes e manifestação visível de Deus na Terra, para o qual os reis eram como escravos. Os Brahmatmas teriam governado a Índia da ascensão de Yati-Rishi em 13.300 a.C., data que Jacolliot afirma ter estabelecido astronomicamente: corresponde ao equinócio da primavera ocorrendo no primeiro grau de Libra. Sua capital solar, Asgartha, era de esplendor sem paralelo e ali vivia o Brahmatma, "invisível, entre suas esposas e favoritos, em um palácio imenso," só aparecendo para o povo uma vez por ano. Para o anticlerical Jacolliot, um deísta que detestava todas as restrições à liberdade social e religiosa, a teocracia do Brahatma não era exatamente admirável. Mas se havia algo pior, a seus olhos, que uma teocracia indiana antiga, eram as pretensões da religião cristã, que nos dois outros volumes que completavam sua trilogia, Krishna e Cristo (Christna et le Christ, 1874) e A Bíblia na Índia (La Bible dans l’Inde, 1872), ele tenta desmascarar como nada mais que uma imitação de antigas religiões orientais.

Segundo Jacolliot, essa antiga cultura indiana era muto anterior aos "arianos". Estes teriam sido originalmente brâmanes, que por 3 mil anos ou mais formaram uma casta separada cujo nome significava simplesmente "honrado" ou "ilustre". Perto de 10.000 a.C, eles tentaram derrubar as autoridades sacerdotais e Asgartha foi tomada. Os sacerdotes conseguiram forjar uma aliança com os vitoriosos "arianos", que desde então transformaram-se na casta guerreira dos Kshatriyas. Só muito mais tarde, em torno de 5.000 a.C., Asgartha foi destruída pelos irmãos loda e Skandah, que invadiram o Hindustão a partir do Himalaia. Expulsos pelos brâmanes, eles retornaram para o lugar de onde vieram, continuaram rumo ao norte e foram imortalizados com os nomes "Odin" e "Scandinavia." Os nórdicos, diz Jacolliot, conservaram tão bem a memória de sua fuga da Índia e de sua pilhagem de Asgartha que, quando se praparavam para marchar sobre Roma, eles cantavam: "Vamos saquear Asgard, a Cidade do Sol".

É provável que a história tenha sido influenciada não só por Campanella, como também por Ernest Renan, que nos anos 1870 escreveu sobre uma "Asgaard" na Ásia Central, ainda que Jacolliot não cite nenhum dos dois. Sua Asgartha também parece ter tirado parte de sua inspiração de Ayodhya, a lendária capital do rei Rama, herói do Ramayana.

Jacolliot também contou a história de uma terra afundada no Oceano Índico, chamada Rutas. Mais tarde, ele relocalizou esse continente perdido no Pacífico e o relacionou ao mito da Atlântida. Foi citado por Helena Blavatsky e é provável que tenha influenciado sua concepção da Lemúria.

D'Alveydre Editar

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"Arqueômetro", diagrama desenhado por D'Alveydre que faz corresponder as letras do "alfabeto Vattan" a signos do Zodíaco, cores, planetas etc.

O tema foi retomado pelo ocultista francês Joseph Alexandre Saint-Yves d’Alveydre no livro Missão da Índia na Europa (Mission de l’Inde), escrito em 1886 e publicado postumamente em 1910. D’Alveydre teria recebido ameaças de uma confraria intitulada "Os Homens de Negro" para não revelar o segredo de "Agarttha". Sob ameaça de morte, foi obrigado a destruir os originais desse livro e as cópias existentes. Mas um desses exemplares escapou da destruição e foi publicado sob os auspícios de Papus, discípulo de Eliphas Lévi.

Originalmente localizada em Ayodhya, a capital do mítico rei Rama, esse centro teria sido transferido para uma localização secreta sob o Himalaia por volta de 1800 a.C. Seu rei, um “mahatma,” não revela seus conhecimentos mágicos e científicos, pois eles poderiam ser usados pelas forças do Anticristo para construir armas poderosas. Uma vez que as forças malignas forem destruídas, os mahatmas revelarão seus segredos para o benefício da humanidade.

Ainda que diga ter visitado a cidade sagrada de Agarttha em viagens astrais, D'Alveydre não dá descrições muito detalhadas. Seria uma teocracia que guia secretamente o curso da história mundial de acordo com os princípios da "sinarquia", sistema de governo por ele defendido, "de harmonia com os princípios eternos", no qual a autoridade (espiritual) e o poder (temporal) se uniriam, que as raças da superfície teriam perdido desde o cisma que dividiu o Império Universal no IV milênio a.C, e que Moisés, Jesus e Saint-Yves lutavam para restaurar.

Agarttha preservaria a linguagem original da humanidade e seu alfabeto de 22 letras, que chamou de Vattan, ou vataniano, originalmente usado em Atlântida (que teria afundado em 12.000 a.C. e também seria responsável pela construção da Esfinge de Gizé). O governante de Agarttha seria um "Soberano Pontífice" de raça etíope, chamado de "Brahmatina", assistido por dois colegas, o "Mahatma" e o "Mahanga". Possuía há muito tempo os benefícios de uma tecnologia muito mais avançada que a de seu tempo: ilumiação a gás, estradas de ferro, transporte aéreo etc.

Milhares, até mesmo milhões de estudantes nunca penetraram além dos primeiros círculos suburbanos; poucos tem sucesso em subir os degraus desta formidável escada de Jacob que conduz por mei de testes e exames iniciáticos à cúpula central. A escada, um trabalho de arquitetura mágica como tudo em Agarttha, é iluminada de acima com painéis refletores que só permitem a luz entrar depois passar por toda a escala enarmônica, de cores, em comparação a qual o espectro solar de nossos tratados de física é apenas a escala diatônica. É ali que a hierarquia central de Cardeais e Arquis, organizada em semicírculo diante do Soberano Pontífice, aparece iridizada como uma visão de além da Terra, confundindo as formas e aparências corporais dos dois mundos e submergindo em radiâncias celestiais todas as distinções visíveis de raça em uma cromática simples de luz e som, singularmente distante das noções usuais de perspectiva e acústica

Segundo mensagens telepáticas que D'Alveydre afirmava ter recebido do Dalai Lama, essa cidade ficaria sob a cordilheira do Himalaia e comandaria um mundo subterrâneo com ramificações sob os continentes e mesmo sob os oceanos, por meio dos quais comunicações invisíveis se estabelecem entre todas as regiões da Terra. Escreveu que há momentos durante a celebração subterrânea dos "mistérios cósmicos" quando viajantes sobre o deserto se detêm imóveis e mesmo os animais ficam silenciosos.

Ossendowski Editar

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Agharti e a rede de túneis que a comunica com o mundo, segundo a concepção de D'Alveydre e Ossendowski (ilustração de Greg Jenner)

Em 1917, o polonês Ferdynand Ossendowski, professor de ciências, escritor (inclusive de ficção científica) e aventureiro, que então dava aulas na universidade de Omsk, na Sibéria, juntou-se como oficial de inteligência às forças anticomunistas lideradas pelo almirante Aleksandr Kolchak, que lutavam contra a revolução bolchevique. Com a derrota de Kolchak, Ossendowski fugiu para a Mongólia, em busca de uma rota para a Índia.

Quando ali chegou, um certo barão Roman Ungern von Sternberg, oficial do exército anticomunista russo ferozmente anticomunista e anti-semita transformado em caudilho independente, havia invadido a Mongólia (até então pertencente à China) e se proclamado ditador com apoio dos japoneses, dizendo-se reencarnação de Genghis Khan. Ossendowski se pôs a seu serviço como assessor e oficial de inteligência.

Em 1920, Ossendowski foi enviado em missão diplomática ao Japão e EUA, mas enquanto estava neste país, Von Sternberg (também conhecido como Bloody Baron e Mad Baron) tentou invadir a Rússia soviética e foi derrotado, capturado e executado pelos comunistas. Logo depois, o revolucionário mongol Sukhe Batur, com apoio russo, tomou a capital mongol (então chamada Urga, hoje Ulan Bator) e impôs um governo socialista à Mongólia. Ossendowski ficou no Ocidente, onde passou a servir ao serviço diplomático polonês. Antes de retornar à Polônia, publicou nos EUA um livro chamado Bestas, Homens e Deuses, versão romanceada de suas aventuras na guerra civil russa e nas guerras lideradas pelo Bloody Baron que se tornou um best-seller internacional.

Na parte V e última de seu livro, intitulada "O Rei do Mundo", Ossendowski conta uma história na qual várias passagens parecem ter sido tomadas de D'Alveydre, inclusive nos detalhes, mas lhe acrescenta novas minúcias. Na medida em que há algo de autêntica tradição oriental em sua história, provavelmente foi tomada do mito lamaísta de Shambhala - que Ossendowski não menciona, embora seja de importância central tanto na Mongólia quanto no Tibete -, ao passo que nomes como Agharti e similares são desconhecidos nessa cultura.

É possível que Ossendowski tenha inventado a história para conquistar as boas graças do Barão Von Sternberg, que certamente identificaria as forças materialistas do Anticristo, que Agarthi ajudaria a derrotar, com os bolcheviques que tentava esmagar. Segundo Osendowski, ele convenceu o Barão de sua história, que por duas vezes enviou missões para procurar Agarthi. Como o revolucionário comunista Sukhe Batur recrutava tropas dizendo que aqueles que lutassem para livrar a Mongólia de opressão renasceriam no exército de Shambhala, o Barão poderia ter acreditado que, da mesma forma, poderia usar a história de Agharti a seu favor. Já nos anos 1910, com o colapso do Império Chinês, o russo de etnia mongol e monge budista Agvan Dorjiev tentou conquistar o Tibete e a Mongólia para a órbita russa convencendo o Dalai Lama de que o tsar era uma reencarnação de Tsongkhapa, o fundador da escola Gelug (difusora da lenda de Shambhala) e os Romanov eram descendentes dos reis de Shambhala. Até mesmo convenceu o tsar a criar um templo Kalachakra em São Petersburgo, inaugurado em 1913 com um ritual pela vida longa da dinastia Romanov em seu 300º aniversário. E os japoneses, ao invadir a Mongólia Interior em 1937, voltariam a explorar politicamente o mito e tentaram convencer os mongóis de que o Japão era Shambhala, para conquistar seu apoio.

De qualquer forma, Ossendowski conta que um dia, cruzando uma planície perto de Tzagan Luk, os cameleiros mongóis que o acompanhavam se detiveram de repente para orar. Depois montaram outra vez em seus camelos e seguiram. Um dos cameleiros lhe explicou:

– Olhe – disse-me o mongol – como os camelos mexem suas orelhas aterrorizados, como as manadas de cavalos permanecem imóveis e atentas e como os carneiros e o gado se ajoelham no chão. Notou como os pássaros deixaram de voar e os cães de latir? O ar vibra docemente, ouve-se um cântico que penetra o coração de todos os homens, animais e pássaros! O vento cessou de soprar e o Sol parou em seu curso. Todos os seres vivos, tomados de medo, prostraram-se. O Rei do Mundo, em seu Palácio Subterrâneo, ora pelo futuro dos povos de toda a Terra.

Segundo Ossendowski, velhos nas margens do rio Amyl lhe contaram uma história segundo a qual uma tribo mongol, ao fugir das exigências de Genghis Khan, refugiou-se em um país subterrâneo. Outro mongol lhe mostrou, perto do lago Nogan Kul, um "portal fumegante" que servia de entrada ao "reino de Agharti". Um caçador teria entrado ali e voltara com relatos sobre o mundo subterrâneo, mas os lamas cortaram-lhe a língua a fim de impedi-lo de falar sobre tais mistérios. Muitos anos depois, já velho, o caçador voltou à entrada da caverna e desapareceu.

Alguns lamas e o príncipe Chultun Beyli teriam lhe dado mais informações. Há mais de 60 mil anos, um homem santo teria desaparecido com sua tribo sob o solo para nunca mais aparecer. Dois continentes, nos oceanos do oeste e do leste, haviam desaparecido sob as águas, mas seu povo escondeu-se num reino subterrâneo chamado Agarthi, abarcando passagens subterrâneas de todo o mundo, com milhões de habitantes. Todas as pessoas são ali protegidas contra o mal e o crime não existe.

Nessas cavernas, existiria uma luz peculiar que proporciona crescimento a grãos e vegetais e uma vida longa e sadia a seus muitos diferentes povos. A capital seria cercada de cidades de sacerdotes e cientistas e se pareceria com Lhasa, onde o Potala, palácio do Dalai Lama, fica no alto de uma montanha coberta de templos e monastérios. Ali, em palácios de cristal, vivem os governantes invisíveis de todas as pessoas pias: o Rei do Mundo ou Brahytma, que conversa diretamente com Deus, e seus dois assistentes, Mahytma, que conhece o propósito dos eventos futuros e Mahynga, que governa as causas desses eventos. Sem ser visto, o Rei do Mundo governa 800 milhões de homens na superfície da Terra, que cumprirão qualquer ordem sua.

O trono do Rei do Mundo é cercado por milhões de deuses encarnados, os Panditas Sagrados e seu palácio é circundado pelos palácios dos Goro, que dominam todas as forças visíveis e invisíveis da Terra, do Céu e do Inferno e podem fazer tudo pela vida e morte dos humanos. Se a humanidade iniciasse uma guerra contra eles, seriam capazes de explodir toda a superfície do planeta e transformá-la em desertos. Podem secar o mar, transformar terras em oceanos e pulverizar montanhas, fazer crescer árvores e ervas, rejuvenescer os velhos e ressuscitar os mortos.

Em uma viagem ao Sião, um velho brâmane budista do Nepal teria sido levado a uma ilha onde encontrou pessoas com duas línguas que podiam falar simultaneamente em diferentes linguagens, que disseram ter vindo de um reino subterrâneo e lhe mostraram tartarugas com um olho e 16 pés, serpentes enormes de carne deliciosa e aves com dentes que capturavam peixes para seus mestres.

Muitas pessoas teriam visitado esse reino, que uns localizavam no Afeganistão, outros na Índia. O próprio Buda Shakyamuni teria encontrado tábuas de pedra no alto de uma montanha que só entendeu ao chegar a idade avançada e depois penetrou no reino de Agarthi, de onde trouxe migalhas de conhecimento preservadas na memória. Ossendowski também diz que os ciganos teriam sido expulsos de Agarthi.

No final do livro, Ossendowski parece relacionar as profecias sobre a vinda do Rei do Mundo ao Armageddon bíblico e à ansidade ocidental do início do século XX com o "perigo amarelo", a invasão do Ocidente por imensas hordas de chineses e outros asiáticos. Segundo ele, um lama lhe disse que havia sido profetizado, em 1890, que nos próximos 50 anos haveria guerras terríveis, com a devastação do mundo. Após esse período, três grandes reinos seriam estabelecidos no mundo, que viveriam em felicidade por 71 anos. Depois disso, haveria mais 18 anos de guerra e destruição e então os povos de Agharti sairiam à superfície. Ossendowski pergunta, nas últimas linhas: "E se povos inteiros de diferentes cores, fés e tribos começassem sua migração para o Ocidente? (...) uma nova grande migração de povos, a última marcha dos mongóis. O Karma pode ter aberto uma nova página da história! E se o Rei do Mundo estiver com eles? Mas este maior Mistério dos Mistérios mantém seu próprio silêncio profundo."

Roerich Editar

O pintor e teósofo russo Nikolai Roerich (1874 – 1947), que projetou os vitrais do templo Kalachakra de São Petersburgo, liderou uma expedição ao Tibete e Mongólia entre 1925 e 1928 e seu grupo disse ter localizado Shambhala nas montanhas Altai. Fundou, em seguida, sua escola de Agni Yoga, supostamente baseada em idéias teosóficas e budistas. Em 1930, escreveu um livro, chamado Shambhala: Em Busca de uma Nova Era, no qual identificou Shambhala (de onde, segundo ele, Constantino, Genghis Khan e o Prestes João teriam recebido mensagens) com as lendas do Graal, de Thule e da cidade subterrânea que ele chamou de Agharti, associando pela primeira vez os dois nomes e afirmando que eram coisas diferentes. Sua esposa, Helena Roerich (tradutora de Blavatsky para o russo), escreveu em suas Cartas Selecionadas (Collected Letters, 1935-1936), que Blavatsky era mensageira da Fraternidade Branca de Shambhala e que, em 1934, o rei de Shambhala havia chamado de volta ao Tibete os mahatmas que haviam transmitido a Blavatsky seus ensinamentos secretos.

O casal Roerich era simpático à revolução bolchevique e, em 1926, entregaram ao ministro soviético das Relações Exteriores um punhado de terra supostamente enviado por mahatmas do Tibete para colocar no túmulo de Lênin. Helena Roerich referiu-se a Marx e Lenin como mahatmas e afirmou que emissários dos mahatmas do Himalaia haviam se encontrado com Marx na Inglaterra e Lênin na Suíça, apoiando os ideais comunistas de fraternidade universal.

Guénon Editar

O próximo livro importante para a difusão do tema foi O Rei do Mundo (Le Roi du Monde, de 1927), de outro ocultista francês, René Guénon. Considera Agarttha sede dos “Mestres Ascensionados” e da “Grande Fraternidade Branca”, papel análogo ao atribuído pela Teosofia (à qual Guénon era hostil) à sua concepção de "Shamballa" que, por sua vez, é uma versão muito modificada e distorcida do Shambhala dos tibetanos, este sim, um mito antigo e autêntico.

Para Guénon, Jacolliot é "superficial" e "indigno de confiança" e criou suas próprias fantasias sobre algo de que ouviu falar na Índia. Guénon acredita piamente, porém, na veracidade dos relatos de D'Alveydre e Ossendowski e rejeita as evidências de que o segundo plagiou o primeiro, que haviam sido apresentadas em 1925 pelo explorador sueco do Tibete Sven Hedin (que, nos anos 30 e 40, trabalharia para o nazismo), em seu livro Ossendowski e a Verdade (Ossendowski und die Wahrheit).

No livro de Guénon, o "Rei do Mundo", ou Bhahmātmā, é o chefe de um centro espiritual estabelecido no mundo terrestre por uma organização encarregada de preservar uma tradição de origem "não humana". O chefe dessa organização representa o próprio Manu, o Legislador Primordial e usa legitimamente o seu título.

Guénon não toma posição sobre se Agarttha (palavra que ele interpreta como "Inviolável") existe histórica e geograficamente. Para ele, o importante é seu significado simbólico, como prova da suposta unidade profunda entre as concepções de diferentes religiões e indício de um Apocalipse iminente, após o qual o mundo seria reorganizado de acordo com seus ideais conservadores.

Na sua obra, o "Rei do Mundo" tem também o papel de protótipo da união do papado e da monarquia absoluta, proposta política à qual ele se ligava através da sua participação em periódicos da ultraconservadora Action Française, até que esta foi condenada pelo Vaticano, no final de 1926 - mesmo se, desde 1912, ele era também ligado ao sufismo muçulmano, que considerava a forma de iniciação esotérica válida mais acessível e adequada a um ocidental.

Guénon, cuja filosofia tornou-se conhecida como "Perenialismo" (pela crença em uma "Filosofia Perene", eterna e imutável) ou "Tradicionalismo", fez críticas radicais à Teosofia, que considerava uma "Anti-Tradição", cujas forças trabalhavam para destruir todas as formas válidas de expressão religiosa e preparar o caminho para o Anticristo (embora, na sua opinião, apenas a elite dos teósofos estivesse consciente disso). A Teosofia levaria a uma "Contra-Iniiação", a perversão satânica não apenas da doutrina e moralidade religiosa, mas também da própria espiritualidade contemplativa.

Talvez por isso tenha, paradoxalmente, deixado de lado a tradição autêntica de Shambhala, nome que nos meios ocultistas estava associado à Teosofia e mesmo ao materialismo e ao bolchevismo (por intermédio do casal Roerich), para referir-se a uma "Agarttha" que não passa de uma fantasiosa invenção moderna.

Eubiose Editar

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Templo da Sociedade Brasileira de Eubiose em São Lourenço, MG, dedicado a Agharta

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Agartha como interior da Terra Oca, segundo Raymond Bernard

Nos anos 50, Henrique José de Souza, então presidente da Sociedade Teosófica Brasileira (depois transformada em Sociedade Brasileira de Eubiose), propôs uma nova variante da teoria da Terra Oca. Na superfície interna da Terra Oca ficaria Agharta, com sua capital em Shamballah. Vale notar que essa concepção é mais semelhante à Pellucidar dos romances de Edgar Rice Burroughs do que às concepções da Terra Oca apresentadas por Halley, Leslie e Symmes.

Os discos voadores, que nesses anos começavam a aparecer na imprensa sensacionalista, estariam emergindo na superfície através de aberturas nos pólos Norte e Sul. Em função dessa crença, a Sociedade Teosófica Brasileira construiu, em sua sede de São Lourenço, Minas Gerais, um templo em estilo clássico dedicado a Agharta. Em 1957, O. C. Huguenin, discípulo de Souza, popularizou sua teoria no livro Dos Mundos Subterrâneos para o Céu - Os Discos Voadores.

Nesse mesmo ano, o bioquímico Walter Siegmeister, judeu alemão emigrado para os EUA que usava o pseudônimo de Raymond W. Bernard, esteve em São Paulo, encontrou o livro de Huguenin numa livraria e ficou fascinado. Também entusiasmado pela tese brasileira, Ray Palmer, editor da revista estadunidense Flying Saucers, uma das primeiras dedicadas à ufologia, abandonou na edição de dezembro de 1959 a tese de que os OVNIs vinham do espaço interplanetário em favor da tese brasileira.

Em 1964, Raymond Bernard publicou seu próprio livro sobre o assunto (dando os devidos créditos a Souza e Huguenin), chamado A Terra Oca - A Maior Descoberta Geográfica na História Feita pelo Almirante Richard E. Byrd na Terra Misteriosa Além dos Pólos - A Verdadeira Origem dos Discos Voadores.

Souza e Bernard uniram Agharta à idéia da Terra Oca, especulação científica do século XVII já se tornara tema de várias obras de fantasia e ficção científica (inclusive Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne, e Pellucidar, de Edgar Rice Burroughs). Identificaram a civilização do interior da Terra como Agartha e lhe deram Shamballah como capital, conciliando em um só os dois mitos rivais, que Pauwels e Bergier, mais tarde, transformariam em duas civilizações mortalmente inimigas (ver abaixo). Os esquimós e os ciganos teriam vindo dessa terra subterrânea, da qual hoje estariam partindo naves espaciais que, passando pelos pólos, se dirigem a outros mundos e mesmo "outras galáxias". Agharta seria a lendária terra dos Hiperbóreos, terra feliz e aprazível localizada além do círculo ártico e a Ultima Thule dos geógrafos antigos. Entre a superfície e Agharta, haveria ainda imensas cavernas habitadas por "raças semi-avançadas".

Além disso, haveria várias passagens ligando o mundo da superfície ao subterrâneo por meio de cavernas. Uma delas ligaria diretamente Lhasa, no Tibete, a Shamballah, a capital de Agharta. Outras passagens estariam no monte Epomeo, Itália (ilha de Ísquia, perto de Nápoles); na Grande Pirâmide de Gizé, nas "Minas do Rei Salomão"; na caverna Mammoth, do Kentucky; e também no Brasil, perto de Manaus, em Mato Grosso (Serra do Roncador) e perto das Cataratas do Iguaçu. Siegmeister-Bernard morreu de pneumonia em 1965, quando procurava por estas últimas em Santa Catarina, confiando nas indicações do livro de Huguenin, que dava grande importância a uma suposta lenda indígena local que descrevia uma terra subterrânea habitada por um povo frutívoro e livre de doenças.

Segundo a descrição de Bernard, a Terra é oca, com paredes de cerca de 1.300 km de espessura e nos pólos existem aberturas de cerca de 2.250 km com bordas que curvam suavemente para dentro, de forma que um viajante por terra, mar ou ar entraria dentro da abertura sem perceber que estaria entrando no interior da Terra. Os pilotos que pensam que estão cruzando o pólo norte geográfico, na realidade seguiriam a "borda magnética" da entrada.

A civilização de Agharta teria sido construída por atlantes, antes da catástrofe que destruiu Atlântida. Partindo de sua montanha sagrada piramidal, o monte Meru ou Olimpo (cuja forma seria recordada nas pirâmides), seus governantes divinos teriam conduzido seus veículos voadores (citados na versão teosófica de Atlântida), que Bernard identificava com os OVNIs, através das aberturas polares "para se novo lar no Walhalla, os palácios de ouro de Shamballa, a capital de Agharta". Essa migração pela "Ponte do Arco-Íris" da Aurora Boreal teria sido recordada nos mitos nórdicos como "O Crepúsculo dos Deuses".

Uma guerra nuclear teria aquecido a atmosfera a ponto de derreter as calotas polares e submergir Atlântida. Um grupo de sobreviventes, liderado por Noé, teria se refugiado nos planaltos do Brasil (então colônia atlante), onde construíram cidades subterrâneas para se proteger da chuva radioativa.

A crença em civilizações subterrâneas continua a ser popular no Brasil, onde vários outros lugares dos planaltos, além dos indicados por Souza, Huguenin e Bernard, como vieram a ser indicados como possíveis entradas para o mundo subterrâneo e conexões com outros lugares "misteriosos" do mundo. Sete cidades da Serra da Mantiqueira no sul de Minas Gerais, próximas a São Lourenço - Pouso Alto, Itanhandu, Carmo de Minas, Maria da Fé, São Tomé das Letras, Conceição do Rio Verde e Aiuruoca - fariam parte do sistema, cada uma delas ligada a lugares místicos distantes - respectivamente Macchu Picchu (Peru), El Moro (lugar do Novo México, EUA, onde há ruínas de um antigo povoado Zuñi), Chichen Itzá (Yucatán, México), Sydney (Austrália), Sintra (Portugal), Cairo (Egito) e Srinagar (Cachemira, Índia).

Nos anos 70 e 80, muitas comunidades esotéricas e alternativas se estabeleceram em São Tomé das Letras (MG), Pirenópolis (GO), Chapada dos Guimarães (MT) e outras localizações nos planaltos brasileiros, nas quais também haveria comunicações com o mundo subterrâneo, esperando com isso sobreviver, como os supostos atlantes, à catástrofe que muitos esperavam para a virada do milênio. Também a Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, foi relacionada à visão de mundo da Eubiose. Segundo Souza, teria sido um grande templo esculpido por fora e por dentro da rocha, dentro da qual haveria grandes salões, ligados à rede de comunicação com outros lugares místicos e com o mundo subterrâneo.

Pauwels e Bergier Editar

Um novo viés foi dado a esse imaginário pelos escritores franceses Louis Pauwels e Jacques Bergier em O Despertar dos Mágicos, obra de 1960. Segundo eles, depois do cataclisma que reduziu Gobi a um deserto (que insinuam ter sido uma guerra nuclear), os senhores e mestres desse antigo centro de civilização abrigaram-se em um vasto acampamento subterrâneo sob o Himalaia. No coração dessas cavernas, eles se dividiram em dois grupos, um seguido a "Via da Mão Direita" e outro a "Via da Mão Esquerda". O primeiro teria seu centro em Agarthi (mais uma grafia), um lugar de meditação, uma oculta cidade do Bem que não interfere nas coisas mundanas. O segundo foi para Schamballah (outra grafia inovadora), cidade de violência e poder cujas forças comandam os elementos e as massas da humanidade e aceleram a chegada da raça humana à "virada do tempo". Os Homens Sábios, líderes dos povos do mundo, farão um pacto com Schamballah, a ser selado com juramentos solenes e sacrifícios.

Sem indicar fontes, Pauwels e Bergier atribuíram tais crenças ao general e ideólogo nazista Karl Haushofer em 1905, antes de suas viagens ao Oriente, de uma "Sociedade do Vril" da qual não há sinais antes da I Guerra Mundial. Os autores que antes haviam escrito sobre Agartha não citavam Shamballa e vice-versa: eram mitos ocultistas semelhantes e concorrentes, o primeiro relacionado a uma corrente de fundo católico e sufi, tradicionalista e monarquista; o segundo a uma teosofia de caráter orientalista e neo-hindu, crítico da tradição cristã e abraâmica e simpático ao nacionalismo indiano. Aparentemente, coube a Pauwels e Bergier projetar essa rivalidade ideológica dos séculos XIX e XX em uma rivalidade mítica entre duas potências subterrâneas ocultas.

Ainda segundo esses autores, os nazistas buscaram auxílio de Schamballah, mas foi Agharti que se dispôs a ajudá-los. A partir de 1926, uma "Sociedade dos Homens Verdes", formada por tibetanos e hindus e liderada por um monge tibetano conhecido como "o homem de luvas verdes" teria se estabelecido em Munique e Berlim e intermediado contatos com Hitler e Agarthi, à qual os nazistas enviaram expedições. Quando os soviéticos tomaram Berlim, teriam encontrado mil cadáveres de tibetanos que teriam cometido suicídio em uniformes nazistas.

O relato, conforme notou Alexander Berzin, é extremamente improvável. Ao contrário dos japoneses, os budistas tibetanos condenam o suicídio. E se houvesse pessoas de tipo físico mongol ou tibetano a serviço do nazismo, seriam mais plausivelmente da etnia Kalmyk (também budista), que vive perto da foz do Volga, no mar Cáspio. Com a derrota dos czaristas pelos bolcheviques, muitos kalmyks que lutaram ao lado dos anticomunistas se refugiaram na Europa e mais tarde se uniram aos nazistas, quando estes invadiram a URSS, esperando libertar seu país da opressão de Stálin. O exército alemão de fato chegou à Kalmykia e recebeu o apoio de 5 mil voluntários de seu povo, que depois acompanharam os alemães na retirada e na derrota.

Frère Editar

A partir desse cenário conspiracional, muitos outros escritores, na maioria franceses, elucubraram suas próprias especulações. Jean-Claude Frère, em seu Nazisme et sociétés Secrètes (1974), depois do cataclisma que tornou Hiperbórea inabitável, há cerca de 6 mil anos, seus habitantes dividiram-se em dois grupos. Um seguiu para a Atlântida e misturou-se aos lemurianos que ali viviam. Outro migraram para o atual Gobi e ali fundaram Agartha, que por dois mil anos foi o "centro do mundo" e de uma brilhante civilização.

Então, outra catástrofe ocorreu, Atlântida foi destruída e a superfície foi devastada. Agartha sobreviveu sob a Terra. Grandes iniciados, como Pitágoras, Apolônio de Tiana e Jesus ali teriam estado para receber ordens dos Mestres do Mundo. Enquanto isso, o povo "ariano" migrava em duas direções: uma para o norte e oeste, tentando retornar a seu lar hiperbóreo e conquisar territórios perdidos. Um segundo grupo foi para o sul, para os Himalaias e ali fundou outro centro secreto nas cavernas subterrâneas.

Os filhos das "Inteligências de Fora" teriam se dividido em dois grupos, um seguindo o "Caminho da Mão Direita" sob a "Roda do Sol Dourado", o outro o "Caminho da Mão Esquerda", sob a "Roda do Sol Negro". O primeiro preservou o centro de Agartha, esse indefinido lugar de contemplação, do Bem e da força Vril. O segundo criou um novo lugar de iniciação em Shambhala, a cidade da violência que comanda os elementos e as massas humanas, apressando a chegada do "ossuário do tempo". Diz Frère que essa seria a doutrina que os nazistas

Referências Editar

  • Joseph George Caldwell, "On Edward Bulwer-Lytton: Agharta, Shambhala, Vril and the Occult Roots of Nazi Power" [1]
  • Ana Luiza Barbosa de Oliveira, "Terra Oca" [2] [3]
  • Ferdynand Antoni Ossendowski, Beasts, Men and Gods [4]
  • René Guénon, O Rei do Mundo. Lisboa: Edições 70, 1982.
  • R. W. Bernard, The Hollow Earth. New York: Fieldcrest, 1964 [5]
  • Sal Bonavita, "The Hollow Earth Theory" [6]
  • Greg Jenner, "Nibiru and the UFO Connection - Part One" [7]
  • Alexander Berzin, "Mistaken Foreign Beliefs about Shambhala" [8]
  • Charles Upton, "Editor’s Foreword: The “Counter-Initiation” Documented — a Traditionalist Perspective" [9]

Veja também Editar

Shambhala

Shambhala teosófica

Terra Oca

Geocosmos

Pellucidar

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