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Anjos

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Francesco Botticini.jpg

A Assunção da Virgem, de Francesco Botticini (século XV). Os anjos aparecem agrupados em três hierarquias e nove coros

Paradiso Canto 31.jpg

Dante e Beatriz contemplam o Empíreo, ilustração de Gustave Doré para a Divina Comédia de Dante Aleghieri

Os anjos (do grego ἄγγελος, ángelos, "mensageiro", tradução do hebraico malach, que tem o mesmo significado), nas principais religiões monoteístas, incluindo o zoroastrismo, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, são seres espirituais que atuam como mensageiros do Deus único e executores de sua vontade. Em muitas correntes dessas grandes religiões, alguns anjos são objeto de culto próprio, ou invocados em práticas mágicas.

Anjos no zoroastrismo Editar

ArdashirII.jpg

O hamkar Mithra (à esquerda) abençoa a investidura do xá Ardashir, relevo em Taq-e Bostan, século III

No zoroastrismo, muitos nomes de anjos são conhecidos, representados em forma humana ou de animais reais ou fantásticos. São chamados yazata ("veneráveis") ou yazad, nome originalmente dado a divindades menores do antigo paganismo persa.

Além disso, a Ahura Mazda, o deus supremo, foram atribuídas sete emanações, chamadas Amesha Spenta ("Imortais Sagrados"), que na evolução posterior da religião foram personificados como arcanjos:

  • Spenta Mainyu ("Espírito Sagrado"), criador do ser humano e representação do próprio Ahura Mazda, Hormuzd em farsi moderno;
  • Vohu Manah ("Bom Pensamento"), Bahman em farsi moderno, responsável pela vida animal;
  • Asha Vahishta ("Retidão Suprema", "Ordem"), Ardibehesht em farsi, responsável pelos astros e pelo fogo;
  • Khshathra Vairya ("Governo e Poder") ou Vohu Kshathra ("Bom Governo"), Shehrevar em farsi, responsável pelos metais e minerais;
  • Spenta Armaiti ("Devoção Sagrada"), Spendarmad em farsi, responsável pela terra;
  • Haurvatat ("Perfeição"), Khordad em farsi, responsável pela água;
  • Ameretat ("Imortalidade"), Amardad em farsi, responsável pela vida vegetal.

Vinte e três dos yazata, chamados hamkar ("colaboradores"), são especialmente designados para assistir os Amesha Spenta, a saber:


Hamkar Significado Colabora com Domínio especial
Dae-pa-Adar Fonte de fogo HormuzdBem-estar humano
Dae-pa-DinFonte de visão Hormuzd Bem-estar humano
Dae-pa-Meher (Mithra) Fonte de amizade HormuzdBem-estar humano
Ghosh (Geush Urvan, Goshorun) Princípio da vida Bahman Bem-estar animal
Mohor (Maonghah, Mah) Lua Bahman Harmonia mental
Ram (Raman) Bom humor Bahman Sorte, alegria
Adar (Atar, Azar) Fogo ArdibeheshtLuz e calor
Behram (Warharan, Verethraghna) Esmagar o inimigo Ardibehesht Vitória e sucesso
Sarosh (Sraosha, Sorush) Voz da consciência Ardibehesht Intermediário entre Deus e os humanos
Aneran (Anaghra Raocha, Anagran)Luz infinita Shehrevar Influências divinas
Asman Firmamento Shehrevar Encorajamento
Korshed (Khur, Hvare-khshaeta) Sun Shehrevar Energia solar
Meher (Mehr, Mihr) Justiça e verdade Shehrevar Luz cósmica
Ard (Ashisvangh)Boa sorte Spendarmad Riqueza, recursos materiais
Avan ou Aban (Anahita) Rio da vida Spendarmad Maternidade, reprodução
Din (Daena, Den) Visão, revelação Spendarmad Fé, crença
Tir (Tishtrya, Tishtar) Estrela mística Spendarmad Chuva
Arda-Fravash (Fravashi, Farvadin)Espírito guardião Khordad Alma humana
Govad (Gowad, Vayu) Bom vento KhordadVento e ondas
Marespand (Manthra Spenta, Mehr-Esfand) Encanto da abundância Khordad Magia e encantamentos
Ashtad (Arshtat) Firmeza Amardad Madeira, artes e ofícios
Rashne (Rashnu, Rashn) Honestidade Amardad Justiça
Zamyad (Mati) Terra Amardad A terra e os lares humanos


Outros yazata importantes são Barzo ("exaltação"), relacionado à inspiração criativa; Daham, Dahma Afriti ou Dahman Afrin ("astúcia"), relacionado à bênção, Erman ou Airyaman ("amigo, companheiro"), relacionado à cura; e Hom (Haoma) ("elixir"), relacionado à saúde e imortalidade.

Anjos na Bíblia e Talmude Editar

Paradise lostcast.jpg

Lúcifer Expulso do Céu, gravura de Gustave Doré para o Paraíso Perdido de John Milton

Vision-of-Ezekiel.jpg

Visão de Ezequiel, de Rafael (1518)

Guido Reni 031.jpg

Arcanjo Miguel, de Guido Reni (1636)

The Annunciation.jpg

A Anunciação (São Gabriel Arcanjo) de Eustache Le Sueur (1650)

Saint Raphael.jpg

Arcanjo Rafael com o Bispo Domonte, de Bartolomé Esteban Murillo (1618-1682)

Na Bíblia, os anjos aparecem, quase sempre, na forma de um homem normal de boa aparência, sem asas, mas algumas classes de anjos, como sugere a etimologia de seus nomes, foram originalmente concebidos com formas de animais ou outras formas não-humanas (seraphim, "serpentes flamejantes"; cherubim, relacionados aos grifos ou aos lammasu babilônicos, representados como touros com asas e face humana; ophanim, "rodas") e, nas visões proféticas, tomam, por vezes, formas perturbadoras.

No livro de Isaías, os serafins são descritos como tendo seis asas: "cada um deles tinha seis asas; com um par velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam".

Os querubins também eram representados com asas, com as quais cobrem a Arca da Aliança (Êxodo, 1º livro dos Reis, 2º livro de Crônicas). Outras passagens assinalam que Deus senta sobre eles (livro de Samuel, Isaías), ou que estes puxam seu carro (Crônicas, Eclesiástico), o que sugere que tenham formas de animais.

No livro de Ezequiel, o profeta tem uma visão dos cherubim e ophanim ("rodas") e lhes dá uma descrição particularmente difícil de interpretar:

E o ruído das asas dos querubins se ouviu até ao átrio exterior, como a voz do Deus Todo-Poderoso, quando fala. Sucedeu, pois, que, dando ele ordem ao homem vestido de linho, dizendo: Toma fogo dentre as rodas, dentre os querubins, entrou ele, e parou junto às rodas. Então estendeu um querubim a sua mão dentre os querubins para o fogo que estava entre os querubins; e tomou dele, e o pôs nas mãos do que estava vestido de linho; o qual o tomou, e saiu. E apareceu nos querubins uma semelhança de mão de homem debaixo das suas asas. Então olhei, e eis quatro rodas junto aos querubins, uma roda junto a um querubim, e outra roda junto a outro querubim; e o aspecto das rodas era como a cor da pedra de berilo. E, quanto ao seu aspecto, as quatro tinham uma mesma semelhança; como se estivesse uma roda no meio de outra roda. Andando estes, andavam para os quatro lados deles; não se viravam quando andavam, mas para o lugar para onde olhava a cabeça, para esse seguiam; não se viravam quando andavam. E todo o seu corpo, as suas costas, as suas mãos, as suas asas e as rodas, as rodas que os quatro tinham, estavam cheias de olhos ao redor. E, quanto às rodas, ouvindo eu, se lhes gritava: Roda! E cada um tinha quatro rostos; o rosto do primeiro era rosto de querubim, e o rosto do segundo, rosto de homem, e do terceiro era rosto de leão, e do quarto, rosto de águia. E os querubins se elevaram ao alto; estes são os mesmos seres viventes que vi junto ao rio Quebar.

Na Antiguidade cristã e na Idade Média, os serafins foram geralmente representados como homens com seis asas. Os querubins, como homens de quatro asas (às vezes cobertas de olhos) e faces de leão, touro, homem e águia e os demais anjos como homens com um só par de asas. A generalização das asas pode estar relacionada às representações aladas de divindades mensageiras pagãs, como Hermes, Íris e Nike (Vitória).

Em tempos mais modernos os anjos são quase sempre representados como bonitos homens ou meninos com um só par de asas. Bebês alados, representando almas puras chamadas propriamente de putos (putti), foram também erroneamente considerados "querubins". Embora as representações de anjos freqüentemente pareçam andróginas, são raras as representações distintamente femininas.

Os anjos mencionados nos livros mais antigos do Antigo Testamento não recebem nomes. O rabino Shimon ben Lakish (230 - 270 d.C.) afirmava que os nomes específicos dos anjos foram adoptados pelos judeus a partir de tradições babilônicas, depois do exílio, e muitos comentadores modernos concordam com esta opinião.

Apenas dois são citados pelo nome no cânon hebraico e no Antigo Testamento protestante, mais precisamente no livro de Daniel: Gabriel (Gabri'el, "Mestre que vem de El"), mensageiro que anuncia a sucessão de impérios mundiais e a futura restauração de Israel pelo "Ungido" (Messiach) e Miguel (Micha'el, "Semelhança de El"), cujo papel é de guardião de Judá e do povo eleito e é o mais importante para a tradição judaica.

O livro de Tobias (um dos livros deuterocanônicos incluído nas bíblias católicas e ortodoxas, mas considerados apócrifos por judeus e evangélicos) cita ainda o nome de Rafael (Rapha'el, "cura de El"), que é enviado ao profeta Tobias, cura-o da cegueira e protege-o em suas viagens e aventuras, apresentando-se como um homem comum, que faz refeições com ele.

Rafael também diz a Tobias como derrotar o demônio Asmodeu (do avéstico *aēšma-daēva, "daeva da ira"), que matara, na noite de núpcias, os sete noivos anteriores de Sara, com quem Tobias ia se casar. Tobias queima o coração e o fígado de um peixe nas cinzas da lareira e a fumaça espantou o demônio para o Egito, onde foi aprisionado pelo anjo. Rafael foi posteriormente visto como protetor dos viajantes e símbolo dos anjos da guarda em geral.

Ainda no livro de Tobias, Rafael descreve a si mesmo como "um dos sete anjos que estão sempre prontos a entrar na presença da majestade do Senhor" e que conduzem a ele as preces dos humanos.

O livro de Enoque, aceito como canônico apenas pela Igreja etíope, cita os nomes de sete arcanjos ('irin we-ḳaddishin, "sagrados que vigiam"):

  • Uriel (Uri'el, "chama de El", citado ainda no Segundo Livro de Esdras, considerado apócrifo), vigia do mundo e do Sheol ou Tártaro, geralmente considerado um impiedoso anjo do arrependimento;
  • Rafael, vigia dos espíritos humanos;
  • Ragüel (Re'uel, "amigo de El"), vigia dos astros;
  • Miguel, vigia da melhor parte da humanidade, o povo de Israel;
  • Sariel ("mandamento de El"), vigia dos espíritos que seduzem os humanos para o pecado;
  • Gabriel, vigia do Paraíso, das serpentes e dos querubins;
  • Jerameel ou Jeremiel ("misericórdia de El"), vigia da ressurreição.

Outra passagem do livro de Enoque cita "os quatro anjos em face do Senhor":

  • Miguel, anjo da paz que glorifica o senhor para sempre;
  • Rafael, que vigia as doenças de crianças e adultos e bendiz o Messias e os eleitos do Senhor;
  • Gabriel, vigia de todos os poderes e intercessor junto ao Senhor em nome de todos os habitantes da Terra;
  • Fanuel (Penuel, "volta a El"), anjo do arrependimento e da esperança da vida eterna, que impede Satã de acusar os humanos.

As tradições católica e ortodoxa aceitam a existência dos sete arcanjos implícitos no livro de Tobias, mas enquanto os nomes de Gabriel, Miguel, Rafael e Uriel (Fanuel, para os gnósticos) são constantes, os nomes dos outros três variam muito conforme a tradição. Para o Pseudo-Dionísio, são Camael, Jofiel e Zadquiel; para o papa Gregório I, Simiel, Orifiel e Zacariel; para a Igreja Ortodoxa, Selafiel, Jegudiel e Baraquiel. A concepção de sete anjos principais provavelmente deriva do zoroastrismo ou da concepção astrológica mesopotâmica de sete astros-deuses.

No Novo Testamento, Gabriel é o anjo que aparece com mais destaque, ao anunciar os nascimentos de João Batista e Jesus, com o que se torna o anjo mais importante para o cristianismo.

Miguel é citado na Epístola de Judas, ao disputar com o diabo o corpo de Moisés e no Apocalipse, como líder dos anjos na batalha final contra o "Dragão". Por isso, foi considerado o anjo guerreiro por excelência, guardião dos cristãos (como fora do povo de Israel no livro de Daniel) e padroeiro da Igreja e das ordens de cavalaria medievais.

O termo "arcanjo" aparece duas vezes: em relação a Miguel, na Epístola de Judas, e na 1ª Epístola aos Tessalonicenses, na qual se fala do arcanjo (não nomeado) que fará soar a trombeta no dia do Juízo Final.

O Apocalipse cita ainda Abadon ou Apolion como "anjo do abismo" e rei dos "gafanhotos" monstruosos que afligem os humanos nos últimos dias, mas geralmente este é considerado um "anjo caído", dentro da tradição judaico-cristã de que os demônios são anjos que se rebelaram contra Deus.

O Talmude acrescenta o nome de Metatron, cujo nome pode ser derivado do hamkar iraniano Mitra, com o qual partilha algumas características, da expressão grega μετὰ θρóνος (meta thronos, "atrás do trono") ou do latim metator ("líder"). É freqüentemente considerado uma espécie de escriba ou chanceler de Deus e os cabalistas acreditam que se trata do patriarca Enoque que, segundo o Gênesis (5:24), foi levado aos céus por Deus: E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.

Anjos no Islã Editar

Gabriel2.gif

Maomé e o anjo Gabriel em manuscrito turco do século XVI

No Alcorão, são citados Djibril (Gabriel), que traz as mensagens de Alá aos profetas, inclusive a Maomé; Mikhal (Miguel), que domina as forças da natureza; Israfil (Rafael), que fará soar as trombetas no dia da Ressurreição; Malaikat al-Maut ("Anjo da Morte), chamado tradicionalmente de Izrail (no Ocidente, Azrael); Munkar e Nakir, encarregados de interrogar os mortos antes do Juízo Final; Harut e Marut, enviados para testar o povo de Babilônia; Ridwan, guardião do Paraíso; e Maalik, guardião do Inferno.

Kirama e Katibin são dois anjos que sentam nos ombros de cada muçulmano durante suas orações. Um deles anota as boas ações, o outro, as más. O balanço dessas ações, no Juízo Final, determinará se o crente irá para o Paraíso ou o Inferno. Ao final da prece ritual, é costume saudá-los.

Na concepção islâmica, não há "anjos caídos": são os anjos e não os demônios que estão encarregados do Inferno e a diferença entre anjos e demônios é de natureza, não apenas moral. Os demônios, incluindo seu líder Iblis, são djins, seres de categoria intermediária entre os anjos e os humanos, que não são necessariamente maus. Enquanto os anjos são feitos de luz, os djins são feitos de fogo.

Hierarquia angélica judaica Editar

Maimônides, na Yad ha-Chazakah: Yesodei ha-Torah, conta dez ordens de anjos. Essas mesmas ordens são associadas pelos cabalistas a dez arcanjos e dez sephirot (esferas ou emanações divinas):


Ordem Anjos significado
do nome
Arcanjo
na Cabala
Sephirah
na Cabala
significado
da Sephirah
Chayot Ha Kadesh viventes sagrados Metatron Keter Coroa
Ophanim rodas Raziel Chokmah Sabedoria
Erelim atalaia Tzaphkiel Binah Entendimento
Chashmallim esplendor de âmbar Tzadkiel Chesed Benevolência
Seraphim serpentes de fogo Khamael Geburah Severidade
Malachim mensageiros Raphael Tipheret Harmonia
Elohim divinos Haniel Netzach Vitória
Bene Elohim filhos dos divinos Michael Hod Glória
Cherubim grifos (?) Gabriel Yesod Fundação
10ª Ishim humanóides Sandalphon Malkuth Reino


Ezekiel.jpg

A visão de Ezequiel, outra interpretação

Observações:

  • Chayot, singular Chayah, são os "viventes" descritos no primeiro capítulo de Ezequiel: "E do meio dela saía a semelhança de quatro seres viventes. E esta era a sua aparência: tinham a semelhança de homem. E cada um tinha quatro rostos, como também cada um deles quatro asas. E os seus pés eram pés direitos; e as plantas dos seus pés como a planta do pé de uma bezerra, e luziam como a cor de cobre polido. E tinham mãos de homem debaixo das suas asas, aos quatro lados; e assim todos quatro tinham seus rostos e suas asas. Uniam-se as suas asas uma à outra; não se viravam quando andavam, e cada qual andava continuamente em frente. E a semelhança dos seus rostos era como o rosto de homem; e do lado direito todos os quatro tinham rosto de leão, e do lado esquerdo todos os quatro tinham rosto de boi; e também tinham rosto de águia todos os quatro. Assim eram os seus rostos. As suas asas estavam estendidas por cima; cada qual tinha duas asas juntas uma a outra, e duas cobriam os corpos deles. Sua aparência é similar à dos entes designados como querubins no décimo capítulo e com eles identificados. Os intérpretes cristãos não distinguem entre uns e outros.
  • Ophanim, singular Ophan, são as rodas cheias de olhos descritas na mesma visão de Ezequiel, que no décimo capítulo voltam a aparecer, associadas aos querubins, referidas também no livro de Daniel como gagalim (esferas).
  • Erelim, singular Arel, são referidos em Isaías: " Eis que os seus embaixadores (erelim) estão clamando de fora; e os mensageiros (malakim) de paz estão chorando amargamente" ou, numa versão católica, "Eis que a gente de Ariel lamenta nas ruas, os mensageiros de paz choram amargamente.". São associados a momentos de morte e destruição, nos quais resgatam as almas dos justos.
  • Chashmallim, singular Chashmal, referidos no primeiro capítulo de Ezequiel: " Olhei, e eis que um vento tempestuoso vinha do norte, uma grande nuvem, com um fogo revolvendo-se nela, e um resplendor ao redor, e no meio dela havia uma coisa, como de cor de âmbar (chashmal), que saía do meio do fogo." Às vezes equiparados às Dominações do cristianismo. Vale notar que chasmal, em hebraico moderno, também significa "eletricidade", sentido ausente nos tempos antigos e medievais.
  • Seraphim, singular Seraph, descritos por Isaías como de seis asas.
  • Malachim, singular Malach, anjos mensageiros.
  • Elohim, singular Eloah, literalmente "divinos", é um termo mais usado no texto bíblico como sinônimo de Deus e conjugado como singular, caso em que o plural tem um significado aumentativo ou majestático, embora possa também recordar residualmente um antigo politeísmo nos qual os elohim teriam sido os filhos de El, deus supremo. Entretanto, às vezes o termo é conjugado no plural, em certos casos referindo-se claramente a deuses pagãos (por exemplo, no Êxodo, "Não terás outros deuses (elohim) diante de minha face.") e em outros com um significado obscuro, possivelmente referindo-se a anjos ou semideuses, como no Êxodo: Não amaldiçoarás Deus (elohim); não amaldiçoarás um príncipe de teu povo. São às vezes considerados equivalentes às Potestades dos cristãos.
  • Bene elohim são citados no Gênesis: no Gênesis: Viram os filhos de Deus (bene elohim) que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. Desse intercurso, teriam nascido os nefilim, "os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama". São às vezes identificados com os Grigori (do grego egrḗgoroi, "Vigias"), os anjos caídos do livro de Enoque, em número de 200. Teriam sido enviados à terra para vigiar os mortais, mas se apaixonaram por suas mulheres, passaram a viver entre os humanos e lhes ensinaram artes da civilização até então mantidas em segredo, inclusive como fazer armas de metal e cosméticos, provocando a corrupção generalizada que levou ao Dilúvio. Seu líder era Samyaza, secundado por Urakabarameel, Akibeel, Tamiel, Ramuel, Danel, Azkeel, Saraknyal, Asael, Armers, Batraal, Anane, Zavebe, Samsaveel, Ertael, Turel, Yomyael e Azazyel (também chamado Azazel).
  • Cherubim, singular Cherub: referidos em várias passagens da Bíblia.
  • Ishim é um plural regular, não gramatical, de ish, homem, cujo plural gramatical (irregular) é anashim. Aparentemente refere-se a anjos de forma humana. A referência é Isaías 1:23.

Hierarquia angélica cristã Editar

Na tradição cristã, os anjos foram hierarquizados em sete a onze categorias, mais freqüentemente nove ordens ou "coros", como mostra o quadro abaixo:


coro Clemente
de Roma
século I
Ambrósio

século IV
Jerônimo

século IV
Pseudo-Dionísio,
o Areopagita

século V
Gregório,
o Grande

século VI
Isidoro de
Sevilha

século VII
João de
Damasco

século VIII
Tomás de
Aquino

século XIII
Dante
Aleghieri

século XIV
Serafins Serafins Serafins Serafins Serafins Serafins Serafins Serafins Serafins
Querubins Querubins Querubins Querubins Querubins Querubins Querubins Querubins Querubins
Aeons Dominações Potestades Tronos Tronos Potestades Tronos Tronos Tronos
- Hostes - - - - - - - -
Potestades Tronos - Potestades Dominações Principados Dominações Dominações Dominações
Virtudes Principados - Dominações Potestades Virtudes Potestades Virtudes Virtudes
Principados Potestades Dominações Virtudes Potestades Dominações Virtudes Potestades Potestades
Tronos Virtudes Tronos Principados Virtudes Tronos Principados Principados Arcanjos
Arcanjos Anjos Arcanjos Arcanjos Arcanjos Arcanjos Arcanjos Arcanjos Principados
Anjos Arcanjos Anjos Anjos Anjos Anjos Anjos Anjos Anjos
- Dominações - - - - - - - -


Seraphim.jpg

Serafins em iluminura das Petites Heures de Jean de Berry, século XIV

Cherub1.jpg

Querubim em iluminura da Bíblia Floreffe, século XII

Thrones1.jpg

Trono ou Ophan, ilustração moderna

O Pseudo-Dionísio e Tomás de Aquino agrupam os nove coros três a três, em três esferas ou hierarquias. Abaixo, segue a hierarquização de Tomás de Aquino:

  • Primeira Hierarquia: anjos em íntimo contato com Deus, dedicam-se a amá-lo, adorá-lo e glorificá-lo e o representam ou refletem junto aos demais anjos, em relação aos quais seu conhecimento e visão são superiores.
    • Serafins: os mais próximos do trono de Deus, o louvam continuamente e cantam a "música das esferas" e regulam o movimento dos céus. Eternamente ardendo em amor a Deus, seu brilho é insuportável até para os demais anjos.
    • Querubins: são guardiões da luz, das estrelas, do trono de Deus e do Paraíso: é um querubim que, segundo o Gênesis, guarda o jardim do Éden com uma espada flamejante. Para Tomás de Aquino, o líder dos anjos caídos era um querubim, pois estes são os anjos mais identificados com o conhecimento e, portanto, foram os mais propensos ao pecado do orgulho.
    • Tronos (em grego, thronos, "trono"): são humildes e espiritualmente os mais perfeitos. Refletem a luz e a justiça de Deus com perfeição para os anjos inferiores e geralmente são representados segurando instrumentos musicais. São identificados pelo Pseudo-Dionísio com as Rodas ou ophanim, descritos por Isaías como rodas cobertas de olhos em suas bordas. Outros os identificam com os erelim judaicos. Nem uns nem outros são, porém, claramente relacionados com os "tronos" referidos por Paulo na Epístola aos Colossenses: "Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por ele e para ele".
  • Segunda Hierarquia: dirigem os planos de Deus, respondem pelos acontecimentos cósmicos e comunicam seus projetos aos anjos da Terceira Hierarquia.
    • Dominações (em grego, kuriotes, "domínio", "governo"): regulam os deveres dos anjos inferiores. Alguns os identificam com os Chashmallim judaicos.
    • Virtudes (em grego, dunamis, "força"): supervisionam os movimentos dos corpos celestes e a ordem cósmica. São os guardiões de toda a realidade material, de todos os seres corpóreos e encarregam-se dos milagres quando ordenados por Deus.
    • Potestades (em grego, exousia, "controle", "autoridade"): encarregados de coagir os demônios. Alguns os consideram anjos guerreiros criados depois da Queda para serem completamente leais a Deus. Identificados por alguns com os elohim da hierarquia judaica.
  • Terceira hierarquia: executam as ordens superiores. Mais próximos da humanidade, conhecem a fundo a natureza das pessoas que devem assistir.
    • Principados (em grego, arche, "princípio"): guardiões de todos os bons espíritos e da espécie humana, encarregados de nações, províncias, cidades e outros grupos humanos, mas indiretamente, deixando as intervenções a cargo dos arcanjos e anjos. Portam cetro e coroa.
    • Arcanjos (em grego, archangelos, "anjos principais"): Na concepção de Tomás de Aquino, não são os de mais alta hierarquia, mas simplesmente os mais elevados a desempenhar o papel de guardiões em contato direto com humanos. Supervisionam nações e países e executam missões particularmente importantes, como Miguel (o exemplo de Tomás de Aquino), Gabriel e Rafael, os três únicos anjos cujo culto é autorizado pela Igreja Católica. Outros acreditam que esses arcanjos tradicionais são anjos de hierarquia mais elevada (querubins ou serafins) e são chamados "arcanjos" apenas em um sentido genérico de superioridade em relação aos anjos comuns.
    • Anjos : mensageiros e protetores de seres individuais, identificados com os Malachim judaicos. Incluem os anjos da guarda pessoais, os anjos da guarda de igrejas e certos lugares e os executores dos milagres ordenados por Deus, quando autorizados por anjos de hierarquia superior.

O número total de anjos é descrito nos textos bíblicos como enormemente grande, sem que seja dado um número preciso. Uma tradição católica afirma que teriam sido, originalmente, 400 milhões. Em 1467, o demonologista Alfonso de Spina afirmou que o número dos anjos caídos teria sido de 133.316.666. Restariam, portanto, 266.683.334 - número, porém, insuficiente para atribuir um anjo da guarda a cada humano ou mesmo a cada cristão, como exige a tradição.

Angelologia católica Editar

Dominion.jpg

Dominação, pintura na basílica da Abadia de Conception, Missouri, EUA

Virtue.jpg

Virtude, idem

Powers.jpg

Potestade, idem

Principality.jpg

Principado, idem

Guardian.jpg

O Anjo da Guarda, de Giovanni Francesco Barbieri "Guercino" (1591-1666)

Segundo a concepção católica dos anjos desenvolvida por Tomás de Aquino na Suma Teológica, os anjos são seres puramente espirituais, sem corpos, mas que podem moldá-los a partir da condensação do ar, quando isso é necessário para sua missão e simular funções corporais como o movimento, o uso dos sentidos e a fala, embora estas não sejam realmente efetuadas por meio dos corpos. Também simulam a alimentação, embora não absorvam realmente os alimentos em seu corpo.

Os anjos caídos podem ainda simular o ato sexual, mas não gerar a vida. Não produzem sêmen: este precisa ser retirado de um homem. Para isso, tomam primeiro a forma feminina, como súcubos, para depois inseminarem a mulher como íncubos. Segundo Agostinho e Tomás de Aquino, os Bene Elohim não eram anjos, caídos ou não, mas homens da estirpe de Seth, chamados "filhos de Deus" que se relacionarem com as "filhas dos homens", da estirpe de Caim - embora alguns dos seus descententes, principalmente antes do Dilúvio, tenham sido realmente gigantes.

Por não terem corpos reais que possam ser contidos em um espaço, os anjos não podem estar realmente em um lugar determinado, a não ser no sentido em que seu poder, por ser finito, precisa ser aplicado em um só lugar, grande ou pequeno. Entretanto, não é contido em um lugar e sim o contém, exercendo seu poder de fora.

Um anjo caído ou demônio não pode realmente ocupar o mesmo lugar de uma alma humana, ou seja, o corpo, mas apenas envolvê-lo dessa maneira. Dois anjos não podem estar no mesmo lugar.

Como os anjos "estão" em um lugar apenas no sentido desse contato virtual, seu movimento pode tanto ser contínuo, passando pelo espaço intermediário, quanto não-contínuo, transportando-se instantaneamente de um ponto a outro.

Ao contrário de Deus, os anjos não conhecem as coisas por sua essência, mas por suas formas. Mas não precisam ir às coisas para se informar, pois seu conhecimento das formas é inato, não é tirado delas e sim de Deus. Anjos superiores tem um conhecimento mais universal por estarem mais pertos dos princípios, do qual as verdades podem ser deduzidas, enquanto os inferiores, por não serem capazes dessas deduções, precisam ser esclarecidos. Seu conhecimento não é racional e discursivo, mas direto e intuitivo.

Por terem um intelecto superior ao humano, os anjos (inclusive anjos caídos) podem conhecer pessoas particulares e prever o futuro melhor do que um humano o faria a partir desses princípios, assim como um astrônomo deduz um eclipse a partir de leis gerais, mas ao contrário de Deus, não conhecem o futuro ou as individualidades de maneira direta e perfeita. Podem deduzir os pensamentos de um humano a partir das reações de seu corpo, que podem conhecer melhor e mais intimamente que um humano, mas não "ler" diretamente suas mentes.

Os anjos não podem errar ou serem enganados em relação às causas naturais e os anjos a serviço de Deus não fazem julgamentos a não ser quando ordenados, de maneira que não podem errar. Mas os anjos caídos podem ser enganados ou cometer erros em relação a assuntos sobrenaturais, por não conhecerem a vontade de Deus.

Os anjos têm vontade livre e livre arbítrio, assim como os humanos e por meio dela aceitam a verdade e amam (intelectualmente) a Deus. Mas até mesmo os anjos caídos não têm ira nem concupiscência, que dependem do corpo, a não ser no mesmo sentido metafórico em que se fala da "ira de Deus". Apesar de serem responsáveis por todo tipo de pecados ao induzir os humanos a cometê-los, só podem cometer os pecados intelectuais do orgulho e da inveja. Não sentem prazer carnal.

Os anjos não foram criados antes da matéria, pois "no princípio Deus criou o Céu e a Terra". São parte do Universo e foram criados junto com eles, embora não se possa dizer em que exato momento foram criados. Para Tomás de Aquino, foram criados em estado de graça, do qual necessitavam para se voltarem a Deus, que um intelecto finito não pode alcançar sem ajuda sobrenatural e com livre-arbítrio. Os anjos que pecaram, o fizeram no primeiro instante de sua existência, pois os que se voltaram para Deus imediatamente mereceram a beatificação e foram protegidos do pecado. Ele considera admissível, porém, que tenha havido algum intervalo entre a criação dos anjos e a queda de parte deles, caso não tenham sido criados na graça e no livre-arbítrio.

Para Tomás de Aquino, o chefe dos anjos caídos era um dos mais elevados dentre eles, pois estes seriam os mais inclinados ao pecado intelectual do orgulho. Mas não seria um dos serafins, pois estes ardem em caridade, incompatível com o pecado mortal. Deduz, portanto, que se tratou de um dos querubins, cujo nome estaria relacionado ao conhecimento. Este, por sua vez, exortou outros - um terço de todos, segundo o Apocalipse - ao pecado, com resultado instantâneo, já que os anjos não necessitam de deliberação. Não haveria também Tronos entre os anjos caídos, apesar de haverem Potestades e Principados.

Referências Editar

  • Jewish Encyclopedia: Angelology [1]
  • Tomás de Aquino, Summa Theologica, Prima Pars [2]
  • Wikipedia (em inglês): Angel [3]
  • Wikipedia (em inglês): Christian angelic hierarchy [4]
  • Wikipedia (em inglês): Jewish angelic hierarchy [5]
  • Wikipedia (em inglês): Kabbalistic angelic hierarchy [6]
  • Wikipedia (em inglês): Malakh [7]
  • Wikipedia (em inglês): Zoroastrian angelology [8]
  • Wikipédia: Uriel [9]

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