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Blêmia em gravura de Crônicas de Nuremberg (1493)

Os blêmias (brhm em egípcio antigo; Βλέμμυες o Βλέμυες, blemmyes ou blemmes, em grego), acéfalos ou epistiges são uma espécie mitológica de humanos sem cabeça.

Mitos análogos existiram na China (t´ien), América do Sul (ewaipanomas) e Caribe (chiparemis).

Origem Editar

A fonte da lenda dos blêmias no Ocidente é a História Natural de Plínio, o Velho, cujo Livro V, ao descrever a África, cita esse e outros povos (gampasantes, gotapans, himantópodes etc.) com características fantásticas. Os blêmias são descritos como: Blemmyes traduntur capita abesse, ore et oculis pectore adfixis, ou seja, "os blêmias, que não têm cabeça e têm a boca e os olhos no peito".

Os verdadeiros blêmias Editar

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Um jovem do povo Beja, conhecido pelos romanos como Blêmia

Os blêmias de Plínio são um povo africano real que vivia nos confins do Egito e ocasionalmente incursionava nesse país. Esse povo foi também conhecido como Bugiha por Leo Africanus, Bugas nas inscrições de Axum, Buka nos hieróglifos egípcios, Bugianos nos mapas do século XVII e Beja pelos historiadores e antropólogos modernos. Vivem hoje às margens do Mar Vermelho, do Egito à Eritréia. Acreditam ser descendentes de uma deusa-leoa e seu consorte humano e são hoje notados por suas cabeleiras volumosas.

Segundo Eugen Strouhal, o mal-entendido de Plínio deveu-se ao equipamento bélico dos blêmias da Antiguidade, que consistia em um elmo ou máscara de vime complementado por um escudo oval decorado que cobria do nariz até aos joelhos, dos quais se encontraram restos arqueológicos em Qasr Ibrim. Um guerreiro assim equipado e visto à distância, poderia dar a impressão de não ter cabeça.

Idade Média Editar

Os blêmias reapareceram e foram reelaborados em esculturas, emblemas e gravuras medievais, renascentistas e da época dos Descobrimentos. No século VI, Cosmas Indicopleustes afirmou na Topografia Cristã a existência de dois tipos de blêmias: uns con boca e olhos no peito e outros com olhos nos ombros.

Autores como Isidoro de Sevilha (nas Etimologias), Gervasio de Tilbury, Honório de Autum (na Imago mundi, cerca de 1123) transmitiram o relato de Plínio. Sua localização foi estendida à Índia, devido à confusão medieval dessas terras com a Etiópia. Além disso, novas histórias sobre "acéfalos" surgiram em alguns países, inclusive a Rússia e a Islândia (um manuscrito islandês apresenta duas variantes de acéfalos: uma sem cabeça, mas com pescoço e olhos no peito; outra em que a cabeça parece fazer parte do tronco.

Jean de Mandeville, escritor medieval inglês cuja fantasiosa obra Maravilhas do Mundo (1356), foi considerada verídica por muito tempo, descreveu duas formas diferentes, habitantes da Índia: ”Em outra ilha, até a metade, habitam gentes de feia estatura e má natureza, que não têm cabeça e têm olhos nos ombros e a boca, torcida como uma ferradura, no meio do peito. Em outra isla, há numerosas gentes sem cabeça, e que têm olhos e a cabeça nos ombros”.

O Libro del conoscimiento de todos los reinos e tierras e señoríos que son por el mundo, e de las señales e armas que han cada tierra e señorío por sy e de los reyes e señores que los proveen, escrito em castelhano no século XIV, fala dos blêmias ou cíclopes da Noruega, “gentes que têm as cabeças nos pescoços”.

Idade Moderna Editar

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Dois ewaipanomas e uma amazona, em ilustração de Hulsius para a obra de Raleigh

Continua a se falar dos acéfalos no final do século XV, em obras como a de médico Hartmann Schedel, Liber chronicorum (1493) e a crença tornou-se ainda mais difundida no século XVI, quando passam a ser citados também como existentes no Novo Mundo, ao qual são transferidos muitos mitos antes localizados na África ou na Asia, tanto em fontes hispânicas quanto nas anglo-saxãs.

Entre as fontes anglo-saxãs, podem-se destacar As Viagens de Hakluyt, que alude ao rio e território de Gaora ou Caora, habitado por humanos que se ajustan à imagem dos blêmias de Plínio, e também os habitantes da Guiana descritos por Walter Raleigh, que aparecem com o nome de ewaipanomas como vizinhos do Eldorado e das índias amazonas (ou icamiabas).

Sebastian Münster (na Cosmographia universalis, de 1544) e Konrad Licostene (Prodigiorum ac ostentorum chronicon, 1557), continuam a apresentar tais seres fantásticos como realmente existente. A tendência se mantém no século XVII, como mostram 'Fortunio de Licenti (De monstrorum caussis, natura et differentiis, 1616) ou Ulisses Aldrvandi (Monstrorum historia, 1642). Também William Shakespeare alude aos blêmias em Otelo.

Referências Editar

  • Wikipedia (em castelhano): Blemias [1]

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