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Caapora

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Caipora

Caapora ou Caipora, ilustração de Marcos Jardim

Caapora2

Caapora, escultura no Parque das Águas Claras, Pindamonhangaba, SP. Foto de Lauro Jeans (2009)

Caapora ou Caipora é o nome dado no Nordeste do Brasil e Espírito Santo a entidades análogas ao curupira. O nome vem do tupi ka'apora, formado de ka'a, "mato" e pora "habitante de". Segundo o Dicionário do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo, distingue-se do curupira por ter pés normais. Em geral, também não é representado peludo como o curupira, mas glabro como um índio.

Enquanto o termo curupira referia-se a uma entidade mágica desde tempos pré-cabralinos, o termo caapora, na origem, referia-se a índios bravios, não assimilados, em contraste com os índios aldeados das missões. O termo caipira tem a mesma origem e também foi usado para designar índios selvagens e depois uma assustadora entidade mágica da selva, embora mais tarde tenha adquirido, nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, o significado de roceiro rústico (caracterizados pela agricultura de subsistência, pela cultura itinerante e por não terem a posse da terra) e, mais recentemente, o de qualquer natural do interior.

Em um sentido figurado, chama-se de "caipora" tanto uma pessoa que supostamente causa má sorte, azar ou infelicidade quanto a pessoa azarada ou mal-sucedida naquilo que faz, como se supõe que seja o caso do caçador perseguido pelo caipora propriamente dito.

Características Editar

Geralmente, o caapora ou caipora é descrito como um índio tapuia de pele escura, nu ou de tanga, ágil, que fuma cachimbo e adora fumo e cachaça, dominando com seus assobios os animais da mata. Indo o caçador munido de fumo e encontrando o Caapora, se este pedir-lhe e for satisfeito, pode contar que será daí em diante feliz na caça. Por outro lado, detesta o alho e a pimenta, capazes de provocar-lhe cólera.

Também se diz que o caipora é capaz de ressuscitar os animais mortos sem sua permissão, apavorando os caçadores. Faz isso com uma simples ordem verbal, ou com o contato do focinho do caititu (suíno selvagem) que cavalga, ou com uma vara de ferrão, ou ainda com um galho de japecanga (Smilax sp., trepadeira espinhosa medicinal, de efeito sudorífero, depurativo e anti-sifilítico, cujos frutos eram usados pelos índios como tintura).

Ceará Editar

No Ceará, segundo Câmara Cascudo, aparece com cabeleira hirta, olhos de brasa, cavalgando um caititu e agitando um galho de japecanga Engana os caçadores que não lhe trazem fumo e cachaça e surra impiedosamente os cachorros.

Rio Grande do Norte e Paraíba Editar

No Rio Grande do Norte e Paraíba, é tido como inimigo dos cães de caça. Obriga-os a correr atrás dele, para fazer com que os caçadores o sigam, mas desaparece de repente, deixando os cães tontos e os caçadores perdidos. Anda sempre à cavalo, ou montando um veado ou um coelho.

Pernambuco Editar

Em Pernambuco, apresenta-se com um pé só, redondo como o do pé-de-garrafa, e traz consigo sempre um cão a que dão o nome de Papa-Mel.

Sergipe Editar

Em Sergipe, quando não o satisfazem, mostra-se gaiato: brincando, faz o viajante rir até cair morto e é conhecido como "espírito cômico", ou o mata de cócegas.

Bahia Editar

Na Bahia, aparece sob a forma da caiçara, cabocla pequena, quase negra, que anda montada num porco. Também como um negro velho e como um negrinho em que "só se vê uma banda".

Rio São Francisco Editar

Em Minas Gerais e na Bahia, ao longo do rio São Francisco, é um caboclinho encantado, habitando as selvas, com o rosto redondo e um olho no meio da testa.

Rio de Janeiro Editar

No Rio de Janeiro, informa Félix Ferreira, na fazenda de Santa Cruz, da antiga propriedade dos jesuítas, é crença geral entre os que ali são nascidos, que o caapira ou caipora, como é mais comum, tem por seu companheiro o saci-pereira, um pássaro noturno de um pé só, que anda a desoras a cantar pelas estradas: "Saci-pereira, minha perna me dói!" Há uma parlenda infantil Saci-pererê, de uma perna só, com a variante Saci-pererê de uma banda só (Cachoeira, 1933).[1]

Vale do Paraíba Editar

Para os caipiras do Vale do Paraíba, ou piraquaras, a caipora é verde e cabeluda.[2]

Rio Grande do Sul Editar

No Rio Grande do Sul, o caipora tem os pés para trás e é chamado também carambola (Luís Carlos de Morais, Vocabulário sul-riograndense).

Região Sul (século XIX) Editar

No Paraná, segundo Câmara Cascudo, o caipora é um gigante peludo. Essa crença é possivelmente mais antiga que o caipora confundido com o curupira.

Em Monstros e monstrengos do Brasil, Afonso de Escragnolle Taunay reproduz o seguinte Relato do bicho ou monstro que dizem fora trazido da América para esta capital, publicado em Lisboa, em 1807:

"Em São Paulo e em outras partes da América meridional há uma antiga tradição de que se acham naqueles sertões tribos de povos selvagens da grandeza de gigantes, cobertos pela maior parte de cabelos e carnívoros.

Estes homens são conhecidos pelo nome de caipiras, que quer dizer 'selvagem dos bosques', porque cai, na língua do país, significa 'bravio' e pira, 'árvore', e como ali há um uso de fazerem os adjetivos substantivos, designam o homem bravio que vive entre as árvores com o nome de caipira. Outras pessoas dizem que cai significa macaco e que caipiras são macacos grandes que vivem no interior dos bosques; e asseguram que em São Paulo se põe medo às crianças com caipiras, como entre nós com o papão.

Eu mesmo ouvi dizer a um sujeito condecorado, natural daquele país, que a existência dos caipiras era um fato bem averiguado e que haverá pouco mais de trinta anos que os caçadores das vizinhanças de São Paulo haviam haviam morto um.

Também se diz que outros selvagens, conhecidos pelo nome de caiporas, de estatura baixa, mas que se não têm visto nunca mais de que um só por cada vez (montado em um porco bravo, que serve de guia a um rebanho inteiro de porcos).

Os tais caiporas, segundo a opinião de alguns habitantes daquelas terras, são os filhos dos caipiras, porque, como estes são carnívoros, domesticam os porcos bravos e põem em cada rebanho um de seus filhos para conduzir estes animais."

Notas Editar

  1. Ruth Guimarães. "Yacy taperê, diabo menor". Província de São Pedro. Porto Alegre, Livraria do Globo, nº 6, 1947, p.39-41
  2. Ruth Guimarães. "Yacy taperê, diabo menor". Província de São Pedro. Porto Alegre, Livraria do Globo, nº 6, 1947, p.39-41

Ver também Editar

Curupira

Saci

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