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Ursa Major constellation Hevelius

Constelação da Ursa Maior na Uranografia de Johannes Hevelius (1690)

CalistoBoucher

Júpiter e Calisto, de François Boucher (1744) - Zeus toma a forma de Ártemis para aproximar-se de Calisto

Jupitercalisto

Jupiter e Calisto, de Caesar Van Everdingen (1655)

Diana and Callisto - Palma Vecchio

Diana e Calisto, de Palma Vecchio (1525) - Ártemis descobre a gravidez de Calisto

Diana callisto

Diana e Calisto, de Ticiano Vecellio (1559)

RubensCalisto

Diana e Calisto, de Pieter Pauwel Rubens (1638-40)

Calisto (do grego Kallistô, superlativo de kalos, "belo", ou seja, "Belíssima") ora é considerada uma filha de Licáon ou Nicteu, ora uma nínfa oréade. As versões do mito são muito variadas, mas em todas elas Calisto foi seduzida por Zeus, transformada em ursa e, por fim, na constelação da Ursa Maior.

Ovídio Editar

A versão mais conhecida do mito, inspiradora de obras de arte desde o Renascimento, é a de Ovídio, do século I d.C.

Zeus ficou fascinado pela beleza de Calisto, ninfa de Nonácris armada de lança e arco que pertencia ao cortejo de Ártemis e era a mais amada pela deusa, caçando a seu lado como líder das ninfas.

À tarde, quando Calisto se deitava para descansar em uma clareira oculta, Zeus tomou a forma da própria Ártemis e aproximou-se de Calisto para lhe perguntar sobre sua caçada. Calisto saudou a suposta Ártemis dizendo-lhe que era maior que o próprio Zeus, que ficou muito satisfeito de ser preferido a ele mesmo e a beijou e abraçou enquanto ela lhe contava sobre a caçada até que ele, subitamente, voltou à forma masculina e a violentou.

Calisto correu de seu refúgio e Ártemis, que caçava com seu cortejo de virgens nas encostas do monte Mênalo, a viu e chamou. Calisto, pensando ser ela Zeus novamente disfarçado, recuou por um momento, até perceber o cortejo que garantia sua identidade. Juntou-se a elas corada, calada, de cabeça baixa por ter violado seu voto de virgindade à deusa. Mas Ártemis, por sua própria falta de experiência no assunto, não percebeu o que havia acontecido até nove luas depois, quando as ninfas se despiram para se lavar em um regato e ela se escondeu, receosa. Então Ártemis, furiosa, a expulsou: "Vá embora! Você não pode profanar nossas fontes sagradas".

Hera soube do que acontecera e quando ouviu dizer que Zeus tivera um filho humano chamado Arcas, ficou furiosa com a possibilidade de que Calisto se vangloriasse de ter tido um filho com seu marido. Atacou-a, arrastou-a rudemente no chão e transformou-a em ursa, incapacitando-a de pedir ajuda a Zeus. Com receio de se aventurar em terreno desconhecido, Calisto passou a vaguear nos campos onde antes caçara, fugindo dos caçadores e, ao mesmo tempo, de lobos, ursos e outros animais selvagens, por esquecer sua nova condição.

Quinze anos depois, o jovem Arcas foi caçar na floresta de Erimanto e viu sua mãe sem reconhecê-la - ninguém havia lhe contado sobre sua origem. Reconhecendo o filho, Calisto pôs-se de pé, admirada e muda, quando ele se aproximou. Arcas, assustado, ergueu a lança contra ela, mas Zeus não permitiu que a matasse e os removeu para os céus, transformados em constelações.

Hera, indignada com a glória conferida a Calisto e seu filho, voou para Tétis e Oceano, queixando-se de que sua rival fora divinizada e sentada no Trono do Céu, sobre o próprio Eixo do Mundo, envergonhando-a a cada noite e incentivando outras rivais e pediu aos deuses do Oceano que ao menos proibissem Calisto de de mergulhar em suas águas: "que não deixem uma concubina banhar-se nessas águas pura". Tétis e Oceano a atenderam e, por isso, a Ursa Maior nunca se põe.

Hesíodo Editar

A versão mais antiga que se conhece para esse mito parece ser a da Astronomia, épico perdido de Hesíodo do século VIII a.C. ou VII a.C. citado pelo pseudo-Eratóstenes:

A Ursa Maior (Arktos Megale): Segundo Hesíodo, ela [Callisto] era a filha de Licáon e viveu na Arcádia. Ela escolheu caçar as feras nas montanhas na companhia de Ártemis e, quando ela foi seduzida por Zeus, isso deixou por algum tempo de ser notado pela deusa, mas depois, quando ela já estava grávida, foi vista no banho e descoberta. Devido a isso, Ártemis ficou enfurecida e transformou-a em uma fera. Calisto tornou-se uma ursa e pariu um filho chamado Arcas. Mas enquanto ela estava na montanha, foi caçada por alguns pastores de cabras e dada com seu filho a Licáon. Algum tempo depois, sem saber da proibição, ela entrou no perímetro sagrado de Zeus e foi perseguida pelo próprio filho e pelos árcades e estava por ser morta por causa da lei, mas Zeus a libertou por sua ligação com ela e a pôs entre as estrelas, dando-lhe o nome de Ursa (Arktos) por causa de seu infortúnio.

Outra citação da Astronomia de Hesíodo diz sobre Arcas:

Do Boieiro (Boötes), também chamado "Guarda da Ursa" (Arktophylax). A história diz que Arcas era o filho de Calisto e Zeus e vivia na região em torno do monte Lykaion. Depois que Zeus seduziu Calisto, Licáon, fingindo não saber do ocorrido, entreteve Zeus, como diz Hesíodo e lhe serviu à mesa a criança [Arkas] que ele havia cortado em pedaços.

Ânfis Editar

O comediógrafo ateniense Ânfis (século IV a.C.) parece ter introduzido o conto de Zeus seduzindo Calisto com o disfarce de Ártemis em uma comédia desaparecida chamada Calisto. Sua versão é aparentemente foi mais tarde resumida na Astronomia do pseudo-Higino (adaptação do século II de trabalho do Higino original, de 64 a.C. – 17 d.C.):

Ursa Maior. Hesíodo diz que ela se chama Calisto, filha de Licáon, que reinou na Arcádia. Por seu gosto pela caça, ela juntou-se a Diana (Ártemis) e foi muito amada pela deusa por causa de seus temperamentos similares. Mais tarde, quando foi engravidada por Júpiter (Zeus), ela teve medo de contar a verdade a Diana. Mas não pôde escondê-la por muito tempo, pois seu útero tornou-se mais pesado ao se aproximar o tempo do parto. Quando ela refrescava seu corpo cansado em um regato, Diana percebeu que ela não havia preservado sua virgindade. De acordo com sua profunda traição, a deusa infligiu uma punição nada leve. Tirando seu aspecto de jovem, ela transformou Calisto em uma ursa, chamada "arktos" em grego. Com essa forma ela deu à luz Arcas.
Mas Ânfis, o comediógrafo, diz que Júpiter, assumindo a forma de Diana, seguiu a jovem como para ajudá-la na caça e a abraçou quando estava longe da vista das demais. Quando Diana lhe perguntou por sua gravidez, ela disse que era culpa da deusa e por causa dessa resposta, Diana a transformou da maneira já mencionada. Quando vagueava como uma fera na floresta, ela foi capturada por etólios e levada à Arcádia para o rei Licáon, junto com seu filho, como um presente. Ali, por ignorar a lei, ela teria entrado no templo de Júpiter Liceu [Zeus Lykaios]. Seu filho a seguiu e os árcades os perseguiram e tentaram matá-los [por sacrilégio], quando Júpiter, preocupado com sua indiscrição, a salvou e pôs a ela e seu filho entre as constelações. Ele a chamou Arctos (Ursa) e a seu filho Arctophylas (Guarda da Ursa) (...)
Alguns dizem, também, que quando Calisto foi abraçada por Júpiter, Juno, com raiva, transformou-a em ursa; então, quando ela encontrou Diana caçando, foi morta por ela e mais tarde, sendo reconhecida, foi posta entre as estrelas. Mas outros dizem que, quando Júpiter perseguia Calisto na floresta, Juno, suspeitando do que estava acontecendo, correu para lá para apanhá-lo em flagrante. Mas Júpiter, para esconder sua falta, transformou Calisto em ursa. Juno, então, encontrando uma ursa em vez de uma jovem naquele lugar, apontou-a a Diana, que estava caçando, para que esta a matasse. Júpiter perturbou-se ao ver isso e pôs Calisto no céu com a aparência de uma ursa representada com estrelas.
Essa constelação, como muitos notaram, não se põe e aqueles que desejam alguma razão para esse fato dizem que Tétis, esposa de Oceano, recusa-se a recebê-la quando as outras estrelas vêm se por, porque Tétis foi a mãe adotiva de Juno, em cujo leito Calisto fora uma concubina.
Araeto de Tegéia, porém, escritor de histórias, diz que ela [a Ursa Maior] não era Calisto, mas Megisto e não era filha de Licáon, mas de Ceteu e, portanto, neta de Licáon. Ele diz, também que o próprio Ceteu foi chamado de [a constelação do] Ajoelhado. Os outros detalhes concordam com o que já foi dito. Tudo isso teria acontecido na montanha de Nonácris, na Arcádia.

A seguinte versão é contada nas Fábulas do pseudo-Higino:

Diz-se que Júpiter (Zeus) foi hospedado por Licáon, filho de Pelasgo e seduziu sua filha Calisto. Deles nasceu Arcas, que deu seu nome à Arcádia... A filha de Licáon foi transformada em ursa pela ira de Juno (Hera), porque havia se deitado com Júpiter. Mais tarde, Júpiter a pôs ente as estrelas como uma constelação chamada Septentrio (Ursa Maior) que não se move do seu lugar, nem se põe. Porque Tétis, esposa de Oceano e mãe adotiva de Juno, a proíbe de se pôr no Oceano. Esse, então, é o grande Septentrio, sobre o qual está escrito em versos cretenses: "Tu, também [Arkas], nascido da ninfa licaoniana transformada, que roubada das frescas alturas da Arcádia, foi proibida por Tétis de mergulhar no Oceano porque um dia ousou ser concubina de sua filha adotiva". Essa ursa era chamada Hélice pelos gregos. Ela tem sete estrelas apagadas em sua cabeça, duas em cada orelha, uma no ombro, uma brilhante na cauda, uma em sua pata dianteira, uma na ponta da cauda, duas atrás das coxas, duas na base dos pés, três na cauda - vinte, no total.

Pseudo-Apolodoro Editar

O pseudo-Apolodoro, na Biblioteca (século II d.C.), conta o seguinte:

Eumelo [poeta épico grego do século VIII a.C.] e alguns outros dizem que Licáon teve uma filha chamada Calisto, mas Hesíodo diz que ela era uma das ninfas, ao passo que Asios [poeta do século VIII a.C. ou VII a.C.] identifica Nicteu [provavelmente Nictimo] como seu pai e Ferécides [mitógrafo do século V a.C.] como Ceteu. Ela era uma companheira de caça de Ártemis, imitando suas roupas e permanecendo sob o voto de virgindade feito à deusa. Mas Zeus se apaixonou por ela e a forçou em seu leito, tomando a aparência, dizem alguns, de Ártemis e outros, de Apolo. Para tentar fazê-la escapar da atenção de Hera, Zeus transformou Calisto em ursa. Mas Hera persuadiu Ártemis a atirar na jovem com seu arco, como se fosse um animal selvagem. Há aqueles que mantêm, porém, que Ártemis atirou nela porque ela não protegeu sua virgindade. Quando Calisto morreu, Zeus tomou seu bebê e o entregou a Maia para que fosse criado na Arcádia, dando-lhe o nome de Arcas. A Calisto, ele a tansformou em estrela, que chamou de Arktos (Ursa).

Pausânias Editar

Na Descrição da Grécia (século II d.C.), Pausânias faz várias alusões ao mito:

Sobre a Acrópole de Atenas (...) Deinomenes fez as duas figuras femininas que ficam perto [da estátua de Anakreon], Io, a filha de Ínaco e Calisto, a filha de Licáon, das quais a mesmíssima história é contada, a saber, amor de Zeus, ira de Hera e metamorfose, Io tornando-se uma vaca e Calisto uma ursa.
Licáon tinha uma filha, Calisto. Essa Calisto (repito o mito grego corrente) era amada por Zeus e copulou com ele. Quando Hera descobriu a intriga, ela transformou Calisto em ursa e Ártemis, para agradar Hera, matou a ursa. Zeus enviou Hermes com a ordem de salvar a criança que Calisto levava no útero e transformou a própria Calisto na constelação conhecido como Ursa Maior (Arktos Megas), que foi mencionada por Homero em sua viagem de retorno de Calipso: "Olhando para as Plêiades e o Bootes que tarde se põe, e a Ursa (Arktos), que também chamam de Carroça (Amaxa)". Mas pode ser que a constelação seja simplesmente nomeada em honra de Calisto, visto que seu túmulo é mostrado pelos árcades. Após a morte de Nictimo [irmão de Calisto], Arcas, o filho de Calisto, subiu ao trono [da Arcádia].
Sobre a velha Nonácris, era uma cidade dos árcades que recebeu o nome da esposa de Licáon.
Estinfalo (...) era um neto de Arcas, o filho de Calisto.
Descendo de Krounoi [na Arcádia] por cerca de 30 estádios (6 km), chega-se ao túmulo de Calisto, um monte de terra elevado no qual crescem muitas árvores, tanto cultivadas quanto das que não dão frutos. No alto do monte há um santuário de Ártemis, dita Kalliste. Acredito que Panfo tenha sido primeiro poeta a chamar Ártemis pelo nome de Kalliste por ter aprendido com os árcades."
[No santuário de Delfos] há oferendas dos tegeus [árcades] de espólios dos lacedemônios [espartanos]: um Apolo, uma Nike, os heróis do país, Calisto, filha de Licáon, Arcas, que deu à Arcádia seu nome, Elatos, Afeidas e Azan, filhos de Arcas, e também Trifilo (...) Os que fizeram as imagens foram os seguintes: o Apolo e Calisto foram feitos por Pausânias de Apolônia; Nike e a semelhança de Arcas por Daidalos de Sícion; Trifilo e Azan por Samolas, o Árcade; Elatos, Afeidas e Erasos por Antífanes de Argos. Essas oferendas foram enviadas pelos tegeus a Delfos depois que eles aprisionaram os lacedemônios que atacaram sua cidade.
[Representada entre as sombras de heroínas em uma pintura do século V a.C. do Submundo por Polignoto em Delfos] mais elevada que essas é Calisto, filha de Licáon, Nômia, e Pero, filha de Neleu (...) Em vez de um colchão, Calisto tem uma pele de urso e seus pés descansam nos joelhos de Nômia. Já mencionei que os árcades dizem que Nômia era uma ninfa nativa de seu país.

Referências Editar

  • Junito de Souza Brandão, Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega, Vozes, Petrópolis 2000
  • Theoi: Kallisto [1]
  • Wikipédia: Calisto (mitologia) [2]

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