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ARTIGO EM EDIÇÃO


A própria valorização do cavaleiro e de sua função militar insere-se nessa lógica de processo. Delineou-se na sociedade medieval francesa a partir do século X. Enquanto ocorria uma crescente militarização da sociedade, em função da desintegração progressiva da autoridade central, o status de ser um guerreiro aumentava. Fazer a guerra tornava-se, cada vez mais, uma atividade restrita a um setor determinado da sociedade. A importância cada vez maior da atividade da guerra entre a aristocracia refletiu-se nas teorias políticas da época, como a do bispo Aldebaran de Lyon, que no século IX já dividia a humanidade entre oratores, bellatores e laboratores, isto é, entre os que oram, os que guerreiam e os que trabalham.

O período áureo da cavalaria situou-se entre os séculos XI e XIII. Foi então que se firmou uma literatura voltada aos ideais de cavaleirismo, enaltecendo as virtudes que os combatentes deveriam ter – principalmente a prouesse, ou coragem, e a sagesse, “uma sagacidade especial refinada pela experiência que costuma traduzir-se por prudência”. O cavaleiro perfeito as teria em perfeito equilíbrio. Na impossibilidade de encontrar-se tal perfeição em apenas um homem, reforçava-se o espírito de corpo: um grupo de cavaleiros teria esse harmonia.

Também nesse período a Igreja começava a legitimar as atividades guerreiras dos nobres. A reforma gregoriana fez com que a atividade militar fosse bem-vista, desde que em defesa dos ideais e interesses cristãos. O cristianismo –ou melhor, a cristandade - encontrava-se em expansão. A partir do século XI, o Islão passava a ser sucessivamente atacado, em duas frentes: na Terra Santa e na Península Ibérica.

Cada vez mais, a atividade guerreira aproximava-se da Igreja. As ordens monástico-militares surgiram da necessidade de tornar permanente a mobilização cruzadística no Ocidente e representaram a conversão de grande parte do mundo cavaleiresco. Diversas ordens religiosas de cunho militar surgiram nesse ínterim. A ordem dos Templários originou-se de uma confraria de guerreiros e aristocratas das regiões da Borgonha e da Campanha, formada na primeira metade do século XII. Com a aceitação de sua regra em 1218, tornou-se uma ordem religiosa autêntica, trocando o nome de pauperes milites Christi (soldados pobres de Cristo) pelo nome de “Templários”, pois alojaram-se perto do Templo de Salomão em Jerusalém. Dissolveu-se em 1312, devido a uma sucessão de escândalos envolvendo a ordem e a inimizade desta com Filipe IV da França, que almejava as suas riquezas.

Também ligadas às guerras na Terra Santa foram as duas ordens de cavaleiros Hospitalários. A de São João de Jerusalém era dedicada, sobretudo, a dar assistência aos peregrinos, sobreviveu a expulsão dos cruzados da Terra Santa no final do século XIII, tomando outro nome – ordem de Malta, com o qual sobrevive até hoje – e movendo uma guerra marítima contra o Islão. Já a ordem de Santa Maria era exclusiva dos cavaleiros germânicos, sendo também chamada de ordem Teutônica, e prosseguiu no Norte da Europa até a Reforma Protestante, quando foi laicizada. Na Península Ibérica da Reconquista também os cavaleiros uniram-se em ordens religiosas, como as de Santiago, Calatrava, Alcântara e Avis, que, mais cedo mais tarde, acabaram sendo incorporadas às coroas ibéricas.

Mas, ao aproximar-se o final da Idade Média, a cavalaria tornara-se uma pálida sombra do que já fora. O serviço militar perdia gradativamente o seu poder nobilitante por si só, e cada vez mais outros meios eram procurados para a ascensão social. Com o fortalecimento dos poderes centrais, os processos de nobilitação concentravam-se nas mãos de reis e príncipes, que concediam os títulos de forma a aumentar o seu controle sobre a aristocracia guerreira. Cardini indica que no século XV: “(...) a cavalaria propriamente dita se ter transformado em algo bem insignificante, uma série de ouropéis que se podia vender e comprar, um instrumento de promoção social ou um montão desorganizado de guerreiros, orgulhosos de sua classe, mas desprovidos de meios (...)”

Mesmo o papel militar da cavalaria tornava-se cada vez menor. A introdução da besta e posteriormente do arcabuz tornou-a arcaica. Para assegurar a proteção, a armadura ficara cada vez mais pesada e fechada, comprometendo a agilidade dos cavaleiros. Entretanto, os cronistas da época consideravam a cavalaria “uma espécie de chave mágica com a ajuda da qual explicavam a si mesmos os motivos da política e da história” . Os ideais de cavalaria tornavam-se justificativas, iluminando atos e feitos. E cada vez mais a cavalaria tornava-se um ideal acolhido por um grupo em busca de legitimação, deixando para trás o significado prático que um dia tivera. Os cavaleiros das cortes do século XV estavam muito mais próximos do significado que damos a “cavalheiro” do que ao primitivo sentido da palavra, ligado exclusivamente à função militar.


Uma pequena digressão sobre os “ideais de cavalaria” e suas permanências. Podemos considerar que de certo modo tais ideais permaneceram por muito tempo no imaginário – se é que ainda não continuam. Mesmo com as paródias e sátiras como o famoso romance de Miguel de Cervantes, pode-se encontrar ações que carregavam um espírito de cavalaria no século XVI, como D. Sebastião, rei de Portugal que em um ato classificado por José Mattoso como “arcaico e cavalheiresco” morre em batalha da fé cristã, lançando o reino em uma imensa crise sucessória. Os escritores românticos britânicos do século XIX retomam esses ideais, transformando-os em uma mensagem nacionalista, como Sir Walter Scott e seu Ivanhoé. E nos últimos anos, um certo ideal de cavalaria – principalmente do companheirismo cavaleiresco – vem ressurgindo com a massificação através do cinema, como é o caso da recente trilogia baseada na obra de fantasia do lingüista sul-africano J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, escrito no período entre as duas Guerras Mundiais [1].

Referências Editar

  1. TOLKIEN, J R R. O Senhor dos Anéis. São Paulo: Martins Fontes, 2002 (volume contendo os três livros)

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