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Lullula arborea

Cotovia comum (Lullula arborea)

Alauda arvensis 2

Laverca (Alauda arvensis)

Cotovia (palavra de origem onomatopaica) é um nome genérico dado a várias aves passariformes que constituem a família Alaudidae. São aves do Velho Mundo, com exceção da espécie Eremophila alpestris, que também habita a América do Norte.

O nome "cotovia" alude especialmente à calhandra (do grego kálandra) ou laverca (do gótico *láwerka), de nome científico Alauda arvensis, é encontrada na Europa, Ásia e África e particularmente famosa pelo canto melodioso. É chamada em inglês skylark; em francês alouette des champs; em castelhano alondra común; em italiano allodola; em grego Σιταρήθρα, sitarêthra; em alemão Feldlerche; em dinamarquês sanglærke; em holandês veldleeuwerik; em finlandês kiuru; em sueco, sånglärka.

Também se usa o nome particularmente para a cotovia-comum ou cotovia-arbórea, Lullula arborea, chamada woodlark em inglês, kangaskiuru em finlandês, Heidelerche em alemão, Trädlärka em sueco, alouette lulu em francês, totovía em castelhano, cotoliu em catalão, tottavilla em italiano, boomleeuwerik em holandês, hedelærke em dinamarquês e trelerke em norueguês.

Cotovias Editar

As cotovias vivem na Europa, Ásia e África do Norte. As que vivem na parte mais oriental têm movimentos migratórios mais acentuados em direcção ao sul, durante o inverno. As aves que vivem na área médio-ocidental da área referida movem-se também na direcção de terras baixas e zonas costeiras durante a época fria. Habitam preferencialmente espaços abertos, cultivados ou baldios.

São conhecidas pelo seu canto característico. O seu vôo é ondulante, caracterizado por descidas rápidas e ascensões lentas alternadas. Os machos elevam-se até 100 metros ou mais no ar, até parecer apenas um ponto no céu e então descrevem círculos e continua a cantar.

São difíceis de se distinguir no chão devido ao seu dorso acastanhado com estrias escuras. O seu ventre é pálido, com manchas alvacentas. Alimentam-se de sementes. Na época do acasalamento, acrescentam ao seu regime alimentar alguns insetos. Têm cerca de 15 cm de comprimento.

Laverca Editar

A plumagem da laverca é pouco vistosa, de cor castanha listrada de preto e castanho escuro na parte superior, com um barrete um pouco mais escuro e garganta amarelada, com estrias finas castanhas escuras. A crista do barrete levanta-se em certos momentos. Os olhos castanhos escuros são realçados por uma sobrancelha branca amarelada, e o bico é curto, grosso e de cor acastanhada. A parte inferior do corpo é creme e o peito castanho claro com estrias castanhas escuras. A cauda é alongada e quase negra, com as retrizes externas brancas. As patas são castanhas claras, e o dedo posterior é maior que os outros. Tem um comprimento 17 a 19 cm, uma envergadura de 35 cm e um peso de 30 a 50 g. Não existe um dimorfismo sexual apreciável, exceto ser o macho ligeiramente maior que a fêmea.

Vive em grande variedade de habitats, tanto em planícies como em altitude, em turfeiras, charnecas, campos e pântanos, abandonando as zonas frias para invernar no sul da Europa ou norte de África e Médio Oriente. Com o aproximar da primavera, os machos são os primeiros a fazer a migração inversa para tomar posse do seu território estival, que cobre toda a Europa e a Rússia. Nas migrações podem percorrer de 30 a 80 km por dia.

Distribui-se continuamente por toda a Europa ocidental, assim como na faixa costeira do norte de África, na Turquia e em redor de todo o mar Negro. A espécie é ameaçada pelo desaparecimento de áreas abertas que lhe são propícias, pelas técnicas agrícolas e a caça ainda praticada em numerosas regiões. Alimenta-se de insectos e larvas, minhocas, grãos e sementes diversas

É gregária fora da época de reprodução, juntando-se em bandos de até 100 espécimes, por vezes com outras espécies como petinhas, tentilhões e pintassilgos durante as migrações e no inverno. A laverca corre pelo chão e agacha-se em caso de perigo. Para se alimentar procura o seu alimento no solo um pouco inclinada para a frente e deslocando-se rapidamente. A sua plumagem torna-a quase invisível no solo.

A maioria das populações são sedentárias, mas as populações do norte migram para o sul, juntando-se às populações residentes. O macho canta por cima do seu território, a cerca de 50 a 60 metros do ninho. O canto tem o fim de defender o seu território e de fortalecer a ligação do casal. São monogâmicos e permanecem juntos durante toda a época da reprodução, tornando a juntar-se no ano seguinte, abandonando os bandos e fixando-se no seu território, normalmente o mesmo do ano anterior.

Emite um "trrlit" que pode durar minutos e voa em espiral ascendente até descer em voo picado. Desloca-se correndo no solo ou em voos ondulantes, a baixa altura, por vezes peneirando, mas também tem um voo directo. Canta de forma harmoniosa, em tom alto, por longos períodos de tempo[1]. Canta frequentemente em voo.

Antes do acasalamento o macho sobe e desce cantando em espiral e depois deixa-se cair até ao chão como uma pedra. No solo executa uma marcha em redor da fêmea, com a crista levantada, as asas baixadas e cauda aberta em leque até ela aceitar a fecundação.

O ninho é escondido numa cova no chão, sob a erva, e é construido com ervas e vegetais e atapetado com penas, crinas, pelos etc. A fêmea põe dois a cinco ovos cinzentos amarelados com pequenas manchas, e incuba-os durante 11 dias. Os dois progenitores participam nos cuidados às crias que abandonam o ninho 10 dias após a eclosão e se tornam completamente autónomos ao fim de três ou quatro semanas. São feitas duas, por vezes três posturas por ano. As ninhadas são frequentemente vítimas de rapinas, cobras e outros predadores.

Cotovias no mito, folclore e literatura Editar

Pássaro sagrado para os gauleses, permaneceu, ao longo de toda a história do folclore e das lendas populares francesas, como uma ave de bom augúrio, estando por vezes até mesmo na composição dos talismãs: aquele que tiver em seu poder os pés de uma cotovia, verdadeiros ou figurados, não poderá ser perseguido. Esse talismã assegura a vitória sobre os homens e os elementos.

A cotovia, por sua maneira de elevar-se muito rapidamente no céu ou, ao contrário, deixar-se cair bruscamente, pode simbolizar a evolução e a involução da manifestação. Suas passagens sucessivas da terra ao céu e vice-versa unem os dois pólos da existência, ela é uma espécie de mediadora.

Assim, representa a união entre o terrestre e o celeste. Voa alto e faz seu ninho na terra com talinhos de erva seca. O alçar de seu vôo na clara luz da manhã evoca o ardor de um impulso juvenil, o fervor, a manifesta alegria da vida. Seu canto, por oposição ao do rouxinol, é um canto de alegria, como no poema de Shelley A uma cotovia:

Mais alto ainda, sempre mais alto,
De nossa terra tu te arremessas,
Qual vapor inflamado;
Tua asa vence o abismo azul,
E sobes, cantando e subindo cantas sempre.

Na luz da manhã, a cotovia, qual ventura desencarnada levantando vôo, simboliza o impulso humano para a alegria. Na opinião dos teólogos místicos, o canto da cotovia significa a prece clara e jubilosa diante do trono de Deus. São Francisco de Assis tinha nas cotovias suas amigas prediletas na natureza. Chamava-as "irmãs cotovias" e a literatura franciscana é repleta de alusões a esses pássaros.

Michelet fez da cotovia um símbolo moral e político: a alegria de um invisível espírito que desejaria consolar a Terra. Ela é a imagem do trabalhador, particularmente do lavrador.

Bachelard observa que a cotovia é uma imagem literária pura, seu vôo muito elevado, seu pequeno tamanho e sua rapidez impedem-na de ser vista e se tornar imagem pictórica. Metáfora pura, a cotovia transforma-se, portanto, em símbolo "de transparência, de dura matéria, de grito". E o filósofo cita o poeta Adolpho Rossé: "E depois escutai: não é a cotovia quem canta... é o pássaro cor de infinito"; ao que Bachelard acrescenta: cor de ascensão... um jato de sublimação... uma vertical do canto... uma onda de alegria. Só a parte vibrante de nosso ser pode conhecer a cotovia. Ao cabo de sua análise, Bachelard faz da cotovia pura... o signo de uma sublimação por excelência.

A cotovia foi o nome informal da V Alaudae, uma legião romana recrutada por Júlio César.

Na peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, os dois amantes, depois de uma noite de amor, discutem se o pássaro que ouvem lá fora é a cotovia ou o rouxinol, preferindo este último, que canta durante a noite, enquanto a cotovia anuncia o dia e, com ele, a separação dos amantes. É uma inversão paradoxal do papel tradicional da cotovia.

Na obra Les Miserables de Victor Hugo, o autor conta em determinado trecho a história de uma linda menina (Cosette) que após ser deixada aos cuidados de uma família má, devido aos maus tratos e trabalhos forçados, adquire um aspecto doente e fica muito magra, devido a isto as pessoas que a conhecem começam a chamá-la Cotovia (Alouette).

Artêmique Editar

Segundo um mito relatado nas Metamorfoses de Antoninus Liberalis, Clínis era um babilônio, amado por Apolo e Ártemis. Rico e piedoso, era casado com Harpe, que lhe deu três filhos, Lício, Ortígio e Hárpaso, e uma filha, Artêmique. Freqüentemente, o rico babilônio acompanhava Apolo até o país dos Hiperbóreos e viu que lá se sacrificavam asnos ao deus. Clínis quis fazer o mesmo na Babilônia, mas Apolo o proibiu sob pena de morte e solicitou-lhe que se imolassem as vítimas comuns, bois, ovelhas e carneiros.

Lício e Hárpaso, no entanto, resolveram, apesar das ameaças do deus, oferecer-lhe um asno. Quando este já se aproximava do altar, Apolo o enlouqueceu e o asno, enfurecido, saiu a despedaçar e devorar não só os dois obstinados, como toda a família, que correu para defendê-los. Leto e Ártemis, compadecidas com tantas mortes trágicas, convenceram Apolo a transformá-los em pássaros: Clínis em águia (hypaietos), Harpe e Hárpaso em falcões, Lício em corvo (originalmente branco, depois tornado preto por Apolo em outro mito), Ortígio em abelheiro ou melharuco e Artêmique em cotovia ou calhandra.

Referências Editar

  • Wikipédia: Alaudidae [1]
  • Wikipédia: Laverca [2]
  • Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.
  • Junito de Souza Brandão, Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega, Vozes, Petrópolis 2000

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