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Daimones

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O termo grego daimon, plural daimones, do qual derivam o latim dæmon e o português "demônio", refere-se a vários tipos de entidades intermediárias entre os deuses e os mortais, incluindo deuses menores, espíritos de heróis do passado e também protetores e inspiradores pessoais de cada indivíduo, aproximadamente equivalentes aos gênios dos romanos e também "anjos da guarda" (e também aos "demônios tentadores") do cristianismo.

Os daimones incluem, entre outros, as ninfas, os sátiros, os pãs e os semideuses.

Etimologicamente, a palavra daimon deriva do proto-indo-europeu *da- ou *daə, "dividir", "repartir", com o sentido de um ser que "reparte o destino dos humanos". É cognato de demos, povo (divisão da sociedade) e geodesia (divisão da terra). É uma idéia similar à das fadas do folclore europeu, que também "repartem o destino" dos personagens (como no conto da Bela Adormecida).

Os daimones na antropologia evolucionista Editar

A antropologia evolucionista do século XIX e início do século XX classificava genericamente como daimones quaisquer espíritos sobrenaturais pouco definidos, associados a um determinado lugar (árvores, pedras, bosques etc.), pessoa ou tribo que eram objeto de algum culto.

Segundo essa concepção, a crença em daimones, ou "polidemonismo" era a forma mais primitiva de religião, que deveria ser sucedida pelo politeísmo (crença em deuses, de personalidade mais definida e concebidos como universais), pelo henoteísmo (crença em um deus acima dos demais) e finalmente pelo monoteísmo (crença em um Deus único).

O polidemonismo, por outro lado, teria sido precedido pelo animismo, crença generalizada em espíritos que não são objeto de culto sistemático.

O daimon pessoal Editar

Socrates.jpg

Sócrates e seu Demônio, de Eugéne Delacroix

Acreditavam muitos gregos, como Sócrates, que cada pessoa tem um daimon ou um daimonion (pequeno daimon) pessoal, um protetor que o inspira e em certos momentos pode praticamente possuí-lo. Nesse aspecto, o daimon pode ser tomado, em termos modernos, como uma representação da intuição e dos aspectos indomáveis do inconsciente capaz de contrariar e mesmo ultrapassar as convenções sociais e o senso comum, para o bem ou para o mal. Essa idéia, análoga à do gênio romano, parece ter inspirado os daemons ou "dímons" da trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman.

A crença parece ter-se tornado mais generalizada e importante na época helenística (depois de Alexandre). Dividia-se então os daimones em bons (agatodaimones, kalodaimones ou eudaimones) e maus (cacodaimones). A felicidade e o bem-estar eram identificadas com a posse de um bom daimon (ou "bom gênio", diriam os romanos), ou seja, eudaimonia.

A partir de Alexandre, o daimon pessoal dos grandes reis (e não os próprios, como mais tarde foi entendido, principalmente na era cristã) passou a ser venerado pelo seu povo, freqüentemente de forma obrigatória, provocando resistência dos judeus. O costume foi continuado pelos romanos, a partir de Augusto, como veneração do "gênio" do Imperador, obrigação igualmente rejeitada por judeus e, mais tarde, pelos cristãos.

O demônio de Sócrates Editar

O filósofo Sócrates, segundo o testemunho de seus discípulos Xenofonte e Platão, dizia seguir a orientação de seu daimonion ou demônio, mesmo quando parecia irracional.

Na Apologia (versão de Xenofonte), Sócrates explica como formulou a argumentação com a qual se defendeu da acusação de impiedade, pela qual acabou por ser condenado à morte:

Tornara Hermógenes:

- Não vês que, melindrados com a defesa, fizeram os juizes de Atenas morrer muitos inocentes e absolveram muitos culpados cuja linguagem lhes despertara a piedade ou lhes lisonjeara os ouvidos?

- Por duas vezes - dissera Sócrates - tentei preparar uma apologia; contudo, a isso se opôs meu demônio.(...)

- O que mais me surpreende na acusação de Meleto, cidadãos, é ele afirmar eu não admita os deuses do Estado, quando todos vós, inclusive Meleto, tivestes oportunidade de ver-me oferecer sacrifícios em festas solenes e altares públicos. E como pretender que eu introduza excentricidades demoníacas, quando declaro avisar-me a voz de um deus do que deva fazer? Não se orientam por vozes os que tiram presságios do canto das aves e das palavras dos homens? Ninguém refutará seja voz o trovão, e até o maior dos presságios. Pela voz não divulga a pitonisa, sentada na trípode, a vontade do deus? Que esse deus possui o conhecimento do futuro e o manifesta a quem lhe agradar, eis o que afirmo e comigo afirmam e pensam todos. Apenas que a isso denominam augúrios, vozes, símbolos, presságios, eu os denomino demônio. Com esta denominação creio utilizar linguagem mais verdadeira e mais piedosa dos que atribuem às aves o poder dos deuses. A prova de que não minto contra a divindade é esta: nunca, ao revelar a bom número de amigos os desígnios do deus, fui apanhado em delito de impostura.

E na Apologia (versão de Platão):

SÓCRATES: — (...)Considerai, pois, comigo, ó cidadãos, de que modo me parece que ele diz isso. Responde-nos tu, Meleto, e vós, como pedi a princípio, não façais rumor contra mim, se conduzo o raciocínio desse modo. Existem entre os homens, Meleto, os que acreditam que há coisas humanas, que não há homens? Que responda ele, ó juízes, sem resmungar ora uma coisa ora outra. Há os que acreditam que não há cavalos, e coisas que tenham relação com os cavalos sim? Ou acreditam que não há flautistas, e coisas relativas à flauta sim? Não há? Ótimo homem, se não queres responder, digo-o eu, aqui, a ti e aos outros presentes. Mas, ao menos, responde a isto: Há quem acredite que há coisas demoníacas, e demônios não?

MELETO: — Não há.

SÓCRATES: — Oh! como estou contente que tenhas respondido de má vontade, constrangido por outros! Tu dizes, pois, que eu creio e ensino coisas demoníacas, sejam novas, sejam velhas; portanto, segundo o teu raciocínio, eu creio que há coisas demoníacas e o juraste na tua acusação. Ora, se creio que há coisas demoníacas, certo é absolutamente necessário que eu creia também na existência dos demônios. Não é assim? Assim é: estou certo de que o admites, porque não respondes. E não temo em apreço os demônios como deuses ou filho de deuses? Sim, ou não?

MELETO: — Sim, é certo.

SÓCRATES - Se, pois, creio na existência dos demônios, como dizes, se os demônios são uma espécie de deuses, isso seria propor que não acredito nos deuses, e depois, que, ao contrário, creio nos deuses, porque ao menos creio na existência dos demônios. Se, por outra parte, os demônios são filhos bastardos dos deuses com as ninfas, ou outras mulheres, das quais somente se dizem nascidos, quem jamais poderia ter a certeza de que são filhos dos deuses se não existem deuses? Seria de fato do mesmo modo absurdo que alguém acreditasse nas mulas, filas de cavalos e das jumentas, e acreditassem não existirem cavalos e asnos.

Mas, Meleto, tua acusação foi feita para me pôr à prova, ou também por não saber a verdadeira culpa que me pudesses atribuir: por que, pois, te arriscas a persuadir um homem, mesmo de mente restrita, de que pode a mesma pessoa acreditar na existência das coisas demoníacas e divinas, e, de outro lado, essa pessoa não admitir demônios, nem deuses, nem heróis? Isso não é possível. (...)

(...)

Quanto àqueles cujos votos me absolveram, eu teria prazer de conversar com eles a respeito deste caso que acaba de ocorrer enquanto os magistrados estão ocupados, enquanto não chega o momento de ter de ir ao lugar onde terei de morrer. Ficai, pois, comigo este pouco de tempo, ó cidadãos, porque nada nos impede de conversarmos horas juntos, enquanto de pode. É que a vós, como meus amigos, quero mostrar, que não desejo falar do meu caso presente. A mim, de fato, ó juízes - uma vez que, chamando-vos juízes vos dou o nome que vos convém - aconteceu qualquer coisa de maravilhoso. Aquela minha voz habitual do demônio (daimon, gênio) em todos os tempos passados me era sempre freqüente e se oponha ainda mais nos pequeninos casos, cada vez que fosse para fazer alguma coisa que não estivesse muito bem. Ora, aconteceram-me estas coisas, que vós mesmos estais vendo e que, decerto, alguns julgariam e considerariam o extremo dos males; pois bem, o sinal do deus não se me opôs, nem esta manhã, ao sair de casa, nem quando vim aqui, ao tribunal, nem durante todo o discurso. Em todo este processo, não se opôs uma só vez, nem a um ato, nem a palavra alguma.

Qual suponho que seja a causa? Eu vo-la direi: em verdade este meu caso arrisca ser um bem, e estamos longe de julgar retamente, quando pensamos que a morte é um mal. E disso tenho uma grande prova: que, por muito menos, o habitual signo, o meu demônio, se me teria oposto, se não fosse para fazer alguma coisa de bom. (...)

O Agathos Daimon Editar

Agathos Daimon, "Bom Daimon" ou "Bom Gênio" era um espírito rotineiramente homenageado pelos gregos com uma libação (o equivalente a derramar um pouco da bebida "para o santo" em tempos modernos) ao se beber vinho de maneira cerimonial, especialmente no santuário de Dioniso. Era representado por uma serpente.

O daimon Eros Editar

Os filósofos Sócrates e Platão consideravam Eros um daimon e não um deus (como julgavam a maioria dos gregos), visto que representa uma espécie de carência e os deuses, sendo perfeitos, não podem estar associados a necessidade alguma, nem mesmo a do amor.

Os daimones no cristianismo Editar

A palavra grega daimon foi geralmente usada na Bíblia em grego para se referir aos maus espíritos que, segundo as crenças judaicas e de outras culturas do Oriente Médio, possuíam vítimas humanas e animais para provocar doença e loucura e deviam ser expulsas por meio de exorcismos. A maioria dos milagres de Jesus e dos apóstolos refere-se a expulsão desses daimones ou demônios e a palavra acabou associada exclusivamente a espíritos malignos que, segundo os primeiros cristãos, habitavam os ídolos e fingiam ser deuses para iludir os pagãos.

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