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Dioniso

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La jeunesse de Bacchus

A Juventude de Baco, de William Bouguereau (1884)

Dionysos Louvre Ma87

Dioniso, estátua romana do século II d.C.

Bacchus Leonardo

Baco, do estúdio de Leonardo da Vinci (1510-1515)

Solomon10

Baco, de Simeon Solomon (1868)

Dioniso (do grego Διώνυσος ou Διόνυσος) ou Baco (do grego Bakkhos) era o deus grego da videira, do vinho, do delírio místico e do teatro, geralmente tido como filho de Zeus e da princesa Sêmele.

Originalmente um deus dos camponeses, Dioniso veio possivelmente da Trácia. Aparece muito pouco e sem destaque nos poemas homéricos, embora já estivesse presente na Hélade desde pelo menos o século XIV a.C., como mostram as tábuas micênicas de Pilos.

Etimologia Editar

Seu nome possui algumas variantes dialetais: Homero usa de preferência Διώνυσος (Diônysos), em tessálio encontra-se Diónnysos, em Lesbos Zónnysos, Deúnysos, Diénysos. Como hipocorístico (apelido), encontra-se também Diony.

Do ponto de vista etimológico, Diónysos parece ser um composto do genitivo dio(s), nome do céu em trácio, com um nome nysa que pode ter significado "filho" em trácio, daí "filho do céu" ou "filho de Zeus". Os gregos consideraram Nisa como o nome da montanha mítica onde esse deus nasceu, o que permite a interpretação "Zeus do Nisa".

Os gregos também o chamavam Eleutério, Eleutherios, "Libertador" (epíteto também aplicado a Eros). Baco (do grego Bákkhos) foi usado pelos gregos sobretudo em poesia e apareceu pela primeira vez no Édipo Rei de Sófocles e é de etimologia desconhecida. Dioniso também era chamado Pirigenes, Pyrigenés ou Pirísporo, Pyrísporos, quer dizer, "nascido do fogo" ou "concebido do fogo", ou seja, do raio de Zeus e Tioneu, por ter nascido de Tione, outro nome de Sêmele.

Na forma latinizada Bacchus, era o nome mais usado pelos romanos, que também o identificavam com seu deus nativo Líber, esposo de Ceres.

Dionísio, do grego Dionýsios, "relativo a Dioniso" ou "consagrado a Dioniso" aparece a partir do século V a.C., mas apenas como antropônimo, ou seja, para designar seres humanos, jamais o deus.

Culto Editar

Por meio de um fragmento de Plutarco, relativo às antigas festas beócias das Dédalas, em honra de Hera, sabe-se que em Atenas, e possivelmente na Beócia, se evitava cuidadosamente todo e qualquer contato entre os objetos que pertenciam ao culto de Hera e aqueles pertencentes a Dioniso. Até mesmo as sacerdotisas das duas divindades não se cumprimentavam. A muralha que separava os dois cultos era certamente conseqüência das características opostas dessas divindades: de um lado, Hera, a protetora dos casamentos; de outro Dioniso, o deus das orgias e dos "desregramentos".

Tanto as orgias báquicas como as homenagens coletivas das mulheres de Platéias a Hera Teléia tinham por cenário o monte Cíteron, o que contribuía para açular os ânimos dos adeptos de uma e de outra divindade e alimentar a tradicional rivalidade entre os dois imortais.

Deus das orgias, do êxtase, do entusiasmo e da liberação, Dioniso era festejado com procissões ruidosas que acabaram por dar origem ao ditirambo, ao drama satírio, à tragédia e à comédia. Com a helenização de Roma a partir do século III a.C., os mistérios dionisíacos com a sua licensiosidade e características orgiásticas, aliás mal compreendidas e interpretadas pelos romanos, penetraram particularmente na Itália central e meridional. O Senado Romano, por um decreto de 186 a.C. (Senatus consultum de Bacchanalibus), "também por motivos políticos", proibiu sob pena de morte (o que provavelmente não foi levado muito a sério) as chamadas Bacchanalia, "Bacanais". Mas as seitas místicas sempre mantiveram a tradição dionisíaca e o deus das orgias chegou sem dificuldades à época imperial.

O austero Décimo Júnio Juvenal (98-117 d.C.) desejava sair da Roma corrupta quando via que aqueles que criticavam os costumes, como outrora fizera M. Cúrio Dentato, "viviam" as Bacanais:

Tenho vontade de fugir daqui, para além dos sármatas
e do Oceano lacial, sempre que ouço dissertarem sobre os costumes
aqueles que fingem ser como Cúrio e vivem as Bacanais.

Zagreu Editar

Segundo o sincretismo órfico-dionisíaco, o primeiro Dioniso, chamado Zagreu, nasceu dos amores de Zeus e Perséfone. Preferido do pai, foi escolhido pelo pai para sucedê-lo no governo do universo, mas as Moiras lhe deram outro destino. para proteger o filho dos ciúmes de Hera, Zeus confiou-o aos cuidados de Apolo e dos Curetes, que o esconderam nas florestas do monte Parnaso, mas Hera descobriu o esconderijo e encarregou os Titãs de raptá-lo e matá-lo.

Com o rosto polvilhado de gesso, para não se darem a conhecer, os Titãs agtraíram o pequenino Zagreu com brinquedos: ossinhos, pião, carrapeta, crepundia (chocalhos, argolas, amuletos que se punha ao pescoço das crianças) e espelho. De posse do filho de Zeus, os enviados de Hera fizeram-no em pedaços, cozinharam-lhe as carnes num caldeirão e as devoraram.

Zeus fulminou os Titãs e de suas cinzas nasceram os homens, o que explica no ser humano os dois lados, o mal, vindo dos titãs e o bem, vindo do Zagreu devorado

Atena (ou em outra versão do mito, Deméter) salvou-lhe o coração que ainda palpitava e engolindo-o, a princesa tebana Sêmele tornou-se grávida do segundo Dioniso. O mito possui muitas variantes, principalmente aquela segundo a qual foi Zeus quem engoliu o coração do filho antes de fecundar Sêmele (do frígio zemelô, "terra").

Dioniso Editar

Gerome14

Anacreonte, Baco e Amor, de Jean-Léon Gérôme (1848)

Solomon8

Baco, de Simeon Solomon (1867)

Ao ter conhecimento das relações amorosas de Sêmele com o esposo, Hera resolveu eliminá-la. Tomando a forma de sua ama, aconselhou-a a pedir ao amante que se apresentasse em todo o seu esplendor. O deus advertiu Sêmele que um mortal não é capaz de suportar a verdadeira aparência de um deus imortal, mas como havia jurado pelas águas do Estige jamais contrariar-lhe os desejos, apresentou-se em sua forma divina e Sêmele morreu carbonizada em meio às ruínas fumegantes do palácio.

O feto foi salvo por Zeus, que o recolheu do ventre da amante e colocou-o em sua coxa até que se completasse a gestação normal. Tão logo nasceu o filho de Zeus, Hermes o recolheu e levou-o às escondidas para a corte de Átamas, rei de Queronéia, na Beócia, casado com a irmã de Sêmele, Ino, a quem o menino foi entregue. Irritada com a acolhida ao filho adulterino do esposo, Hera enlouqueceu o casal (veja detalhes em Leucotéia) - Ino se matou e Átamas foi banido da Beócia.

Temendo novo estratagema de Hera, Zeus transformou o filho em bode e mandou que Hermes o levasse, dessa feita, para o monte Nisa, onde foi confiado aos cuidados das ninfas Nisíades e aos sátiros que lá habitavam numa gruta profunda.

Nas paredes da gruta se entrelaçavam galhos de viçosas videiras, das quais pendiam cachos de uvas maduras. Certa vez, Dioniso colheu alguns desses cachos, espremeu-lhes as frutas em taças de ouro e bebeu o suco em companhia de sua corte: o vinho acabava de nascer. Bebendo-o repetidas vezes, Sátiros, Ninfas e o próprio filho de Sêmele começaram a dançar vertiginosamente ao som de címbalos, com Dioniso no centro. Embriagados do delírio báquico, todos caíram por terra semidesfalecidos.

Isso o expôs à ira e ao ciúme de Hera, que enlouqueceu o jovem. Dominado pelo delírio, Dioniso passou pelo Egito e pela Síria e, tendo chegado à Frígia, foi purificado pela deusa Cibele, que o iniciou nos ritos de seu culto orgiástico. Livre da anóia, Dioniso chegou à Trácia, onde o rei Licurgo lhe moveu tenaz perseguição, bem como às suas companheiras, as Mênades, que largaram o tirso e fugiram. O adolescente, apavorado, lançou-se ao mar e foi acolhido por Tétis.

Zeus castigou Licurgo com a loucura. Possuído pela anóia, julgando cortar as videiras, plantas sagradas de Dioniso, Licurgo decepou braços e pernas do próprio filho. A esta punição seguiu-se outra: a Trácia inteira tornou-se estéril. Consultado o Oráculo, Apolo respondeu que a peste só teria fim se o rei fosse morto. Licurgo foi amarrado a quatro cavalos e pereceu esquartejado.

Weguelin14

Baco e o coro das ninfas, de John Reinhard Weguelin (1849 - 1927)

Bacchus ariadne

Baco e Ariadne, de Jules Dalou Aimé (1894)

Da Trácia, Dioniso foi à Índia e conquistou o país com a força das armas e sobretudo com seus encantamentos e poderes míticos. Retornou à Hélade em triunfo, em um carro puxado por panteras, ornamentado com heras e pâmpanos e acompanhado pelos sátiros, pelas bacantes e por outras divindades menores, como Priapo.

Tendo chegado à Beócia, onde nascera Sêmele, o rei local, Penteu, opôs-se com violência à introdução do culto dionisíaco em seu reino. Dioniso o puniu enlouquecendo as mulheres do reino, incluindo sua tia Agave, irmã de Sêmele e mãe de Penteu. Agave e "outras Bacantes" acabaram por despedaçar o próprio rei, julgando que estavam abatendo uma fera. Em Argos, Dioniso manifestou seu poder da mesma forma, enloquecendo as filhs do rei Preto, curadas mais tarde por Melampo.

Desejando viajar até a ilha de Naxos, Dioniso contratou os serviços de piratas etruscos, que tentaram levá-lo para a Ásia e vendê-lo como escravo. Ele transformou os remos em serpentes, encheu o barco de heras e de sons agudos de flautas invisíveis. Tomados pelo desvario, os marinheiros precipitaram-se ao mar e foram transformados em delfins, o que explica serem estes amigos dos náufragos, numa confissão tácita de seu arrependimento.

Tendo difundido seu culto orgiástico por toda a Terra, Dioniso, antes de escalar o Olimpo, desceu ao mundo dos mortos para de lá arrancar o eídolon de sua mãe. Hades consentiu, mas pediu-lhe algo em troca. Dioniso deu-lhe uma de suas plantas favoritas, o mirto, que cobria a fronte dos iniciados nos seus mistérios. Sêmele, arrancada do Hades, subiu aos céus como deusa em companhia do filho.

Já como deus do Olimpo, Dioniso raptou Ariadne em Naxos e tomou parte na luta contra os Gigantes ao lado de Zeus e outros imortais, tendo inclusive matado a Êurito com um golpe de tirso.

Interpretação Editar

No mito naturalista original, segundo Junito de Souza Brandão, a Terra-Mãe (Sêmele), fecundada pelo raio celeste do deus do Céu (Zeus), gerou uma divindade cuja essência se confunde com a vida que brota das entranhas da Terra. No mito tradicional, entretanto, Sêmele é reduzida a simples mortal e o raio de Zeus, embora possa ser interpretado como um sinal de um hieròs gámos que liga duas entidades míticas, o deus Céu e a deusa Terra, foi reduzido à união clandestina do deus supremo com uma jovem mortal, que não poderia deixar de ser fulminada pelo raio de Zeus. O nascimento prematuro, porém, permitiu conferir a Dioniso uma divindade que a simples ascendência paterna normalmente não garantia - os semideuses, embora dotados de qualidades extraordinárias, eram sempre mortais. Ao ser salvo por Zeus e terminar a gestação dentro de sua coxa, Dioniso tornou-se emanação direta do pai.

Referências Editar

  • Junito de Souza Brandão, Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega, Vozes, Petrópolis 2000.

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