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Odisseu Alcinoo.jpg

Ulisses na Corte de Alcínoo, de Francesco Hayez (1813-1815)

A Esquéria (do grego Σχερίη, Shkherín ou Σχερία, Skhería, talvez derivado de skherós, "contínuo", "ininterrupto") ou Feácia era uma terra mítica, mencionada na Odisseia como o lar dos Feácios (do grego Φαίακες, phaíakes, derivado de φαιός, phaiós, "escuro", "pardo") onde Odisseu chegou como náufrago antes de ser gentilmente reconduzido a Ítaca.

Esquéria no Caralho Editar

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Ulisses e Nausícaa, de Michele Desubleo (1602-1676)

Dezoito dias depois que Odisseu deixa Ogígia, sua jangada é destruída por uma tempestade enviada por Posídon, ainda furioso com a mutilação de seu filho Polifemo. O herói é arrastado para Esquéria, que é descrita como uma terra de margens escarpadas, rodeada por penhascos e recifes. Não é descrita explicitamente como uma ilha, embora Homero a chame polyklystos ("de muito agitadas ondas").

Odisseu consegue atingir terra na foz de um grande rio e passa a noite em um bosque de oliveiras, queixando-se da geada e da bruma fria. Enquanto isso, a deusa Atena surge em sonho à princesa Nausícaa (nome de significado incerto, mas relacionado com "nau", "navio"), filha do rei Alcínoo ("defensor da inteligência"), e lhe diz para ir lavar roupas na praia.

Na manhã seguinte, Nausícaa e suas aias lavam roupas à beira-mar e depois jogam bola com gritos e risadas, acordando Odisseu, que dormia exausto. O herói cobre sua nudez com folhas e pede ajuda. Ao vê-lo, as aias se assustam e fogem, mas Nausícaa fica e fala com ele. Para desculpar as aias, ela diz que os Feácios são "os mais distantes dos seres humanos e não vêm outros mortais conversarem com eles"[1], de modo que elas fugiram por nunca terem visto um estrangeiro. Hospitaleira, Nausícaa providencia roupas, comida e bebida para Odisseu e lhe indica o caminho para o palácio do rei Alcínoo.

No caminho para o palácio, Odisseu encontra Atena disfarçada como uma menina pequena e ela o aconselha sobre como entrar no palácio, protegido por cães mecânicos feitos de prata e ouro, construídos por Hefestos e a ganhar o favor da rainha Arete e do rei Alcínoo. O palácio é rodeado por muralhas de bronze que "brilham como o sol" e fechado por portões de ouro. Dentro das muralhas há um jardim magnífico, com árvores que produzem todos os tipos de frutos, peras, romãs e maçãs, durante todo o ano. À noite, o palácio é iluminado por estátuas douradas de jovens com tochas nas mãos. Odisseu, oculto por uma nuvem criada por Atena, atravessa os sistemas de proteção do palácio e entra na câmara do rei Alcínoo.

Naturalmente, o rei e sua corte ficam surpresos ao ver um estrangeiro entrar no seu palácio, mas imediatamente lhe oferecem hospitalidade e o convidam a jogos e banquetes. Odisseu narra então suas aventuras desde que deixou Troia, que constituem o núcleo da Odisseia.

Depois de ouvir a história de Odisseu, Alcínoo lhe oferece a mão de Nausícaa, mas o herói recusa, pois deseja voltar à sua pátria, esposa e filho. Os Feácios se dispõem então a levá-lo para seu lar em Ítaca, fazendo uso de seus navios mágicos, extraordinariamente velozes: Alcínoo afirma que os feácios levaram o cretense Radamanto a Eubéia, "o mais distante dos lugares" e voltaram no mesmo dia. Ele explica:

Revela-me tua terra, teu povo e tua cidade, para que possam meus navios conduzir-te, aproando no rumo por si mesmos, pois os feácios não têm pilotos, nem mesmo lemes como os navios em geral; os nossos compreendem por si próprios os pensamentos e propósitos humanos, conhecem as cidades e os úberes campos de todo o mundo e cruzam velozes o abismo do mar ocultos em bruma e névoas, sem jamais recear qualquer dano ou naufrágio[2].

Homero assim descreve a partida:

Como em terra, quando quatro garanhões atrelados juntos arrancam a um tempo sob os golpes do relho e, empertigados, vão vencendo a estrada, assim se levantava a proa do navio e atrás espumava a escura onda do ruidoso mar. Corria o navio seguro e firme; nem o falcão, a mais veloz das aves, poderia com ele emparelhar-se[3].

Odisseu adormece magicamente assim que o navio parte de Esquéria. Ao chegarem a Ítaca, na madrugada do dia seguinte, "quando surgiu a estrela mais fulgente", o navio, no ímpeto que levava, entrou pela terra firme a metade de sua extensão, tal impulso lhe davam os braços dos remadores. Depois de deixarem Odisseu em segurança com os presentes que lhe destinaram, tão valiosos quanto as prendas do saque de Troia perdidas pelo herói em seu caminho, os feácios tomaram o caminho de volta. Posídon, furioso com a frustração de sua vingança, pede permissão a Zeus para dar cabo do navio para que [os feácios] se moderem doravante e parem de escoltar pessoas e também para rodear sua cidade com alta montanha que a esconda. Zeus o autorizou e Posídon encaminhou-se para Esquéria e, quando o barco chegou à vista, transformou-o em rochedo e enraizou-o no fundo com uma palmada, à vista da cidade.

Alcínoo, ao ver isso, recorda um vaticínio de seu pai Nausítoo ("nau veloz"), segundo o qual o deus do mar se agastaria com seu povo por escoltar os náufragos sãos e salvos e o puniria dessa maneira. Decide deixar de repatriar os mortais e oferecer um sacrifício de doze bois, com a esperança de que Posídon desista de cercar a cidade com uma montanha, conforme fora vaticinado. Não se esclarece se Posídon chegou a cumprir a segunda parte da ameaça.

O rei Nausítoo tiver dois filhos, Rexenor e Alcínoo. Rexenor, que foi morto por Apolo, era pai de Arete, que casou com o tio.

Uma tradição posterior, entretanto, afiança que Telêmaco, filho de Odisseu, veio a se casar com Nausícaa e dela teve um filho, Persépolis.

Esquéria na Argonáutica Editar

A Argonáutica de Apolônio de Rodes foi composta no século III a.C., cerca de cinco séculos depois da Odisseia, mas se passa antes da Guerra de Troia e da viagem de Odisseu. Os argonautas, depois de fugir da Cólquida com o Tosão de Ouro e evitar os peritos de Cila e Caribdis, vão dar a Esquéria. Entretanto, a nau enviada por Eetes, rei da Cólquida, chegara ali antes da Argo e seu comandante exigiu do rei Alcínoo que entregasse Medeia. O rei, depois de consultar a esposa, responde que os atenderia se Medeia não tivesse dormido com Jasão, mas em caso contrário ela deveria permanecer com o herói. A rainha Arete, secretamente, fez saber a Medeia da decisão do rei e Jasão se apressou a unir-se a ela na caverna da ninfa Mácris ou Nisa (ninfa do mel filha de Aristeu, expulsa por Hera de sua caverna na Eubéia por ter ajudado a cuidar do bebê Dioniso). O casamento é preparado com ajuda das potâmidas egeides (filhas do deus-rio Egeu, da Feácia), das oréades do monte Meliteu e das alseidas da planície.

Os Feácios Editar

O nome de "feácios" ("pardos" em grego) sugere um povo de pele escura. Teriam originalmente vivido em uma região chamada Hipéria ("terra alta" ou "terra distante") onde viviam em guerra com os vizinhos Ciclopes, até que Nausítoo, filho de Poseidon e pai de Alcínoo, os levou para Esquéria.

Segundo Alceu, diferentemente da maioria dos humanos, que descenderiam do primeiro homem moldado por Prometeu, os feácios teriam nascido do sangue de Urano que caiu sobre a Terra, quando o deus foi castrado pela foice de Cronos. Essa lenda está relacionada a um nome antigo da ilha de Corfu, Drepane ("foice", devido a seu formato), que em seu tempo (século VI a.C.) já era identificada como a lendária Esquéria.

Localização geográfica Editar

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Baía de Palaiokastritsa, vista de Lakones, tradicionalmente considerada o local onde Nausicaa encontrou Odisseu. A rocha perto do horizonte, ao centro-esquerda, seria o navio petrificado

Desde a Antiguidade, Esquéria foi mais frequentemente identificada com a ilha de Córcira (em grego Κέρκυρα), atual Corfu. O povo de Corfu apontava uma rocha que teria sido o navio punido por Posídon. A baía de Hermones é apresentada como o lugar onde Odisseu naufragou, assim como a angra de Palaiokastritsa (na qual está o suposto navio petrificado) que também seria a localização do palácio de Alcínoo.

Essa identificação não é, porém, compatível com o contexto da Odisseia, que indica que Esquéria era muito distante de Ítaca. Embora Odisseu fosse rei da maioria das ilhas jônicas, praticamente à vista de Corfu, nem ele conhecia Esquéria, nem os feácios o conheciam (embora tivessem ouvido seu nome por Demódoco, poeta cego itinerante que lhes trazia notícias da guerra de Troia). Ao apresentar-se, o herói assinala que vem de uma terra distante: Bem, começarei por dizer o meu nome, para que vós também o conheçais e mais tarde, salvo do dia inexorável, seja eu vosso hospedeiro, apesar da distância de meu solar[4]. Além disso, a viagem de Esquéria para Ítaca numa única noite foi enfaticamente apresentada como uma proeza milagrosa de um navio magicamente veloz, mas seria factível para um navio comum viajar de Córcira a Ítaca em uma noite. Corfu está a apenas 70 milhas de Ítaca ou da península de Paliki em Cefalônia, que pode ter sido no passado uma ilha e a verdadeira Ítaca de Homero. Segundo Heródoto (IV.36), um navio de seu tempo fazia, em média, 1.000 a 1.200 estádios por dia, 185 - 220 km ou 100 - 120 milhas marítimas.

Já nos tempos antigos, alguns eruditos, inclusive Estrabão e Plutarco, apontaram essas inconsistências e sugeriram que Esquéria devia localizar-se no Atlântico, enquanto outros, como Eratóstenes, a consideravam totalmente imaginária.

Acompanhando alguns autores alemães modernos, L. Sprague de Camp, em Continentes Perdidos sugeriu que a Esquéria poderia ser a cidade ibérica de Tartessos, com a qual os gregos de Homero haviam perdido contato e recordavam-se apenas como lenda. A "montanha" com que Posídon isolou Esquéria poderia ser uma alusão aos bancos de areia que tornaram seu porto imprestável e, assim como Esquéria, Tartessos teve a reputação de ser muito rica em metais preciosos. Entretanto, o apogeu de Tartessos parece ter sido posterior à época da composição da Odisseia (cerca de 750 a.C.) e durou até cerca de 530 a.C., quando foi conquistada por Cartago.

O que parece mais certo é que a descrição de Esquéria por Homero influenciou a concepção da Atlântida por Platão. Os elementos em comum incluem poder marítimo, costas escarpadas, baías estreitas, altas muralhas, palácio com portas de ouro, abundância de metal dourado (electro na Esquéria, oricalco em Atlântida), culto de Posídon, duas fontes, banhos quentes, duas colheitas de frutos por ano, um Estado governado por vários reis descendentes de Posídon subordinados a um rei principal (13 reis na Esquéria, 10 na Atlântida) e um soberano que usa cálices de ouro em suas cerimônias[5].

Notas Editar

  1. Odisseia, VI. 204
  2. Odisseia, Canto VIII
  3. Odisseia, Canto XIII
  4. Odisseia, Canto IX, 17
  5. Rainer W. Kühne, "Did Ulysses Travel to Atlantis?", em Science and Technology in Homeric Epics, org. por Por S. A. Paipetis, Springer, 2008

Referências Editar

  • Wikipedia (em inglês): [1]

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