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Heráldica

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ARTIGO EM EDIÇÃO

Heráldica é a ciência que se dedica a estudar e criar brasões.

Brasões Editar

Definição Editar

Coatofarmsfrança.jpg

O brasão é constituído por diversos elementos, como se vê na figura que mostra o coat of arms da monarquia francesa completo, com escudo, elmo, timbre (a figura acima do elmo), paquifes (os adornos laterais), o emblema em baixo e uma divisa em cima. Nesse caso em específico, o escudo é circular e está rodeado pela insignia da Ordem do Espírito Santo.

O brasão de armas – em francês, armories, e em inglês coat of arms – são “emblemas coloridos, próprios de um individuo, de uma família ou a uma coletividade, e submetidos em sua composição a regras particulares, que são as do brasão”.[1]

Origem Editar

A questão da origem dos brasões é polêmica e incerta. Michel Pastoreau, medievalista francês responsável em grande parte pela revitalização dos estudos heráldicos, não achou dados conclusivos sobre uma possível sucessão direta dos emblemas usados pelos gregos na Antiguidade Clássica ou em escudos rúnicos dos germanos, nem mesmo uma forte influência – fosse islâmica ou bizantina – vinda do Oriente com as Cruzadas.[2]

Segundo o autor, os brasões surgiram como resultado da evolução militar no decorrer da Idade Média Central. O equipamento dos combatentes foi se tornando cada vez mais complexo, dificultando a identificação dos cavaleiros no campo de batalha, principalmente partir do momento em que o elmo passou a ser totalmente fechado. Assim, para que os exércitos pudessem discernir onde estaria o seu líder surgiu a necessidade de se pintar os escudos com cores e símbolos distintivos. Uma outra possibilidade apontada pelos heraldistas ingleses Thomas Woodcock e John Martin Robinson, seria uma forma de vaidade individual, mais do que uma necessidade militar coletiva.[3], “com a finalidade de situar os indivíduos em seu grupo social correspondente (...) e cada grupo social no conjunto da sociedade, criam-se signos, marcas e códigos cada vez mais numerosos, mais precisos e formando sistemas cada vez mais rigorosos”. Nesse mesmo momento histórico, estão se modificando os sistemas de nomeação, as indumentárias e há uma multiplicação de atributos e signos, “com a intenção de identificar, classificar e hierarquizar as representações das imagens”. [4]. Contribui para isso o fato de que os testemunhos mais antigos de brasões são em suportes – como selos – alheios a uma função militar e que não teriam como fim o reconhecimento pessoal e que os elmos completamente fechados precederiam em muitos anos a aparição dos primeiros emblemas heráldicos pintados em escudos.[5]

Anjou Monument.jpg

O escudo do conde de Anjou, primeiro registro do uso de um brasão heráldico. Circa 1155 d.C.

Ao certo, sabe-se que o primeiro registro conhecido de um escudo ‘brasonado’ é do século XII, aparecendo em uma figura de meados desse século. Além disso, há um relato escrito de um cronista relatando que Henrique I da Inglaterra cedeu ao seu genro, conde de Anjou, um escudo pintado com leões dourados em um fundo azul ao nomeá-lo cavaleiro, em 1127, apesar de a crônica ser posterior. O escudo está representado no túmulo desse nobre.

No início do século XIII, o uso de brasões já se encontrava disseminado pelo continente europeu, sendo considerado um aspecto do Renascimento do século XIII. E ao contrário do que se pensa, o uso dos brasões na França e em boa parte da Europa não se limitou aos cavaleiros ou aos nobres. Em menos de um século da primeira data conhecida, a utilização de verdadeiros elementos heráldicos encontrava-se disseminada por todos os estratos sociais. Mesmo mulheres e clérigos possuíam e utilizavam emblemas, assim como também o faziam instituições coletivas, como burgos e guildas.[6]

Com a multiplicação do número de brasões, a normatização desses emblemas começou a tornar-se necessária justamente quando o motivo da heráldica ter surgido – a identificação de cavaleiros no campo de batalha – tornava-se cada vez menos freqüentes. A partir do final do século XIV, a cavalaria deixava de ser principalmente uma instituição militar para passar a ser essencialmente uma categoria social. Se antes os torneios eram treinos para que os cavaleiros se distraíssem entre as batalhas, tornavam-se cada vez mais a verdadeira razão de existir do cavaleiro. Os revezes militares sofridos pela França, com um exército cuja base estratégica era a cavalaria, para a Inglaterra, que guerreava apoiando-se na infantaria e em arqueiros, no auge da Guerra dos Cem Anos mostrou que as estratégias militares haviam avançado, deixando para trás a cavalaria. Por exemplo, o triste saldo de Azincourt onde uma parte considerável da nobreza francesa faleceu ou foi capturada.

A figura do arauto tornou-se cada vez mais especializada. Uma de suas funções primitivas era identificar estandartes,escudos e demais emblemas no campo de batalha. Com o passar do tempo, a “decadência” da cavalaria como instituição militar, o surgimento de ordens cavaleirescas nas grandes cortes, e o crescente aumento da importância dos torneios transformou o arauto em um especialista em brasões.

Mas mesmo os cuidados de normatização do século XV não eram regulamentações oficiais. O uso de brasões de armas era ainda muito livre, desde que não se usasse brasões alheios. No princípio, eram ligados ao individuo, desaparecendo quando este morria. Tornaram-se hereditários, como um bem da família. Havia também os escudos ligados a um território ou domínio em especial, que ficaram mais freqüentes a partir do final da Idade Média. Assim, muitos exibiam em seus escudos o símbolo de seus muitos domínios, aglutinando diversos brasões em um único escudo.

Foi somente no reinado de Luís XIV que surgiu uma tentativa de regulamentar o uso de emblemas heráldicos, com a criação do cargo de Juge d’Armes,ou juiz de armas, concedido a Charles d’Hozier. No entanto, não se tratou de uma questão de coibir a utilização de brasões por algumas camadas sociais, mas a recolha de registros de todos as armas heráldicas usadas no território francês assim como o pagamento de uma taxa para poder continuar utilizando o emblema. Para Pastoreau, foi mais uma maneira encontrada para tentar equilibrar as combalidas finanças do Rei-Sol. Apóia-se nessa sua afirmação no fato que, descontente com a arrecadação assim obtida, Coubert criou uma série de circunstâncias que tornariam obrigatório o uso de brasões por famílias ou cidades. [7] Mesmo assim, a tentativa não vingou. Estabelecida em 1696, a obrigação do registro durou até 1711. Apesar do curto tempo de aplicação dessa lei, nos legou preciosa documentação sobre a heráldica francesa dos séculos XVII e XVIII, o Armorial General, contendo as armas colhidas pelos fiscais da coroa em todo o país, organizadas por d’Hozier, que também era genealogista da casa do rei.[8]

O preconceito contra a heráldica, que ficou marcada como um estudo fútil, dedicado apenas à nobreza, deve-se principalmente à dois fatores. Um fator importante foi a Revolução Francesa. Desconsiderando que no final do século XVIII, os brasões eram em sua maioria de elementos não-nobres da sociedade, a partir de 1790 o governo revolucionário proibiu o uso dos antigos emblemas heráldicos, além de ordenar a destruição de todos os símbolos que invocassem a monarquia. Só salvaram-se, em um primeiro momento, os objetos que interessassem às artes, porém em 1792 acabou essa exceção, instaurando um terror heráldico contra quaisquer objetos ou figuras que possuíssem brasões. Assim como a resolução de Luís XIV, a proibição revolucionária não perdurou por muito tempo, nem conseguiu atingir com força o interior do país. Nas cidades mais distantes, nada mudou.

Com a ascensão de Napoleão Bonaparte e o começo do Império, o uso de emblemas heráldicos voltou a ser permitido, porém dessa vez seguindo linhas estudadas cuidadosamente com regulamentações muito precisas, estabelecendo símbolos para distinguir hierarquias e novos elementos do escudo. Com o final do período napoleônico, essas regras foram abolidas e a partir de então o uso de brasões voltou a ser como antes da Revolução Francesa.

Também contribuiu para o senso comum desabonador a própria ação da maioria dos primeiros estudiosos da matéria heráldica, que seguindo a linha de pensamento dos reis de armas do século XV a estudavam como base para estudos genealógicos ou como em fim em si, preocupados em estabelecer diferenças entre as cores ou na nomenclatura de determinada peça. Há exceções, apontadas por Pastoreau, como Max Pinet, que no XIX reabilitou a heráldica como ciência na França, buscando moldes alemães.[9]

Os estudos sobre a heráldica sofreram bastante com o conceito de que só os nobres possuiriam brasões e com a sanha colecionista de antiquários. Produzia-se mais em termos de compêndios de erudição heráldica, colecionando e até mesmo inventando termos, sem se preocupar com o papel social dos brasões. A heráldica seria o lugar dos “mercadores de ancestrais e vaidades nobiliárquicas ou dos amantes dos hermetismos”.[10]


Linguagem Heráldica Editar

Os brasões são uma linguagem codificada, herdeira de simbolismos da Idade Média, que criou um universo particular e uma linguagem própria para designar os elementos heráldicos. Estes possuem nomes, características e significados próprios dentro do sistema dos brasões, muitas vezes diversos do que lhes são atribuídos fora desse contexto.

A língua característica das primeiras descrições heráldicas e que vai influir na formação do vocabulário heráldico em outros idiomas foi o francês. Nas origens, a linguagem foi tirada, muitas vezes, do vocabulário da indumentária, procurando descrever os brasões com precisão e economia de termos. Era uma linguagem prática, sem ser culta nem literária, que surgiu de elementos do cotidiano do mundo da arte.

A parte central do brasão é o escudo, associado quase que de imediato ao brasão no senso comum. No escudo representa-se as armas heráldicas propriamente ditas. Seu formato geralmente emula o dos escudos de combate, podendo então variar de acordo com o que fosse mais utilizado pelos combatentes nas terras de origem do brasão, mas pode haver modificações. Há escudos em formato de coração, de flor ou em outros formatos.

O elemento essencial dentro do escudo é a cor. Podem existir escudos sem figuras heráldicas, mas jamais um escudo desprovido de cor. A importância é tanta que as cores ganharam hierarquia própria dentro da heráldica brasão. São divididas em três categorias: os metais (ouro e prata), os esmaltes (vermelho, azul, verde, púrpura, preto) e os forros (arminhos e veiros). Uma das ‘leis da heráldica’ refere-se justamente a isso: jamais se sobrepõe metal a metal, esmalte a esmalte e forro a forro.

Os metais geralmente são representados pelo amarelo e pelo branco, não sendo raro serem chamados pelo nome dessas cores. Os esmaltes têm, na França, nomes específicos: na ordem, gueules, azur, sinople, pourpre (que não corresponde necessariamente ao púrpura que utilizamos no dia-a-dia) e sable. Os forros tentam reproduzir o efeito do forro de peles colocado às vezes sobre os escudos. Outras cores foram sendo incorporadas a esse repertório, como a carnação, usada por vezes para colorir as partes do corpo humano que apareciam nos brasões. Porém, sua utilização não foi tão ampla quanto a das demais cores.

O escudo pode ser partido em um número par de lados, resultando nas partições do escudo, que passa a ser adjetivado de acordo com a posição da linha que o corta e com o número de lados: partido, cortado, fendido, talhado, etc. As peças são elementos geométricos colocados sobre o escudo, que a primeira vista podem causar confusão com as partições. Porém, ao contrário destas, as peças não criam campos no escudo, não o dividem. As peças mais comuns são a faixa, a banda, a pala, a cruz, o chefe, a barra, a asna, a aspa e o franco-quartel.

As figuras heráldicas por excelência são os animais, reais ou imaginários. Para o período medieval, e considerando toda a Europa, Pastoreau afirma que 30% dos brasões contém um animal. Listar todos seria impossível, mas os principais foram o leão, o leopardo (uma variação do leão), a águia e o dragão, que ocupavam mais da metade dos brasões com animais. O mais utilizado dentre estes era o leão.

Além de animais, outras figuras apareciam em escudos, como vegetais, elementos astrológicos e utensílios do cotidiano: chaves, poços, martelos, machados, rodas, correntes...

Os demais elementos do brasão de armas – elmos, timbres, paquifes – por muitas vezes correspondem ao conteúdo do escudo, seja nas cores, seja nos símbolos. Geralmente, algum elemento do escudo vai reaparecer nos elementos exteriores. Não é incomum que as insígnias da ordem a que pertencesse o dono do escudo aparecesse o rodeando, assim como pequenas divisas e gritos de guerra costumam figurar no brasão.


Armoriais Editar

Armoriais são coletâneas de brasões de armas reunidos para representar os integrantes de uma ordem ou os participantes de algum evento, como torneios ou batalhas.

O Armorial Equestre da Ordem do Tosão de OuroEditar

A ordem do Tosão de Ouro foi das mais importantes dentre as surgidas nesse período final da Idade Média, exemplo para diversas outras. Fundada durante as núpcias do duque Felipe da Borgonha com Isabel de Portugal, em 1430, possuía, além dos seus cavaleiros, quatro oficiais: o Chanceler, o Tesoureiro, o 'Greffier' (responsável pelos registros dos feitos honoráveis dos membros da ordem) e o rei de armas, o oficial encarregado da heráldica da Ordem, responsável por examinar e detalhar as armas de cada um dos companheiros.

O primeiro rei de armas da ordem foi Jean Lefêbvre de Saint Remy, nascido em Abbeville em 1396. Foi arauto de Charolais e tornou-se rei-de-armas da ordem do Tosão de Ouro em 1431, exerceu esse cargo até 1468, quando, na primeira reunião da ordem com o duque Carlos , pediu dispensa de seu serviço.

O grande legado de Saint-Remy foram suas obras sobre heráldica. Escreveu dois tratados sobre o assunto, além de ter sido o mestre por trás da elaboração do armorial da ordem, um dos mais prestigiados armoriais medievais. L’Armorial équestre de la Toison d’or contém setenta e nove retratos equestres em página inteira, na ordem: o Imperador,o Rei de França, os dozes pares do reino (dos quais, o duque de Borgonha era o primeiro), diversos soberanos europeus e os primeiros cavaleiros da ordem, representados em posição de justa. Além dos retratos, o armorial é composto por 942 escudos. As pinturas foram feitas na década de 1440, com guache sobre papel, com as figuras eqüestres estilizadas sendo um exemplo único na arte do século XV.

As reproduções abaixo foram retiradas do projeto Gallica, de digitalização do acervo da Bibliothéque Nationale de France

Exemplos de brasões e suas descrições Editar

--201.43.146.203 00h51min de 22 de junho de 2009 (UTC)Clayton Silva CarlosFicheiro:Exemplo.jpg

Heráldica e Fantasia Editar

Referências Editar

  1. Michel PASTOUREAU Figures de l’heráldique. Paris: Gallimard, 2006, pp. 40
  2. Michel PASTOUREAU. Figures.... Paris: Gallimard, 2006, pp. 40-42
  3. Thomas WOODCOCK e John Martin ROBINSON The Oxford guide to heraldry Oxford University Press, 1988, pp. 1-15
  4. BRULL, G. M. Heráldica medieval: una creación cultural para una sociedad laica Revista Mirabillia, no. 6, dez. 2006, em http://www.revistamirabilia.com/Numeros/Num6/art8.html, acesso em 15 de setembro de 2007
  5. idem
  6. Michel PASTOREAU Traité d’Héraldique Paris: Picard, 1993, pp. 47-50
  7. Michel PASTOREAU Traité... pp. 68-69
  8. Disponível online pelo projeto Gallica, http://gallica.bnf.fr/
  9. Michel PASTOUREAU Traité..., p. 125
  10. Jean Claude SCHMITT Annales

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