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Iemanjá

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Iemanja
Iemanjá dá à luz os orixás
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Yamanja
outra concepção de Iemanjá
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Iemanjá ou Yemanjá (do iorubá Yemọja), era na origem o orixá dos Egbá, nação iorubá estabelecida outrora na região entre Ifé e Ibadan, onde existe ainda o rio Yemọja. As guerras entre nações iorubás levaram os Egbá a migrar para Abeokutá, no oeste, no início do século XIX, levando consigo os objetos sagrados, suportes do axé da divindade. O rio Ògùn, que atravessa a região, tornou-se a nova morada de Iemanjá. Segundo Pierre Verger, esse rio Ògùn nada tem a ver com Ògún, o orixá Ogum, apesar da opinião de autores do fim do século XIX. Seu nome iorubá deriva de Yèyé ọmọ ẹjá ("Mãe cujos filhos são peixes").

O principal templo de Iemanjá está localizado em Ibará, um bairro de Abeukutá. Os fiéis desta divindade vão todos os anos buscar a água sagrada para lavar os axés, não no rio Ògùn, mas numa fonte de um dos seus afluentes, o rio Lakaxa. Essa água é recolhida em jarras, transportada numa procissão seguida por pessoas que carregam esculturas de madeira (ère) e um conjunto de tambores. O cortejo na volta, vai saudar as pessoas importantes do bairro, começando por Olúbàrà, o rei de Ibará.

Iemanjá seria filha de Olóòkun, deus (em Benin) ou deusa (em Ifé) do mar. Tem diversos nomes, relativos, como no caso de Oxum, aos diferentes lugares profundos (ibù) do rio. Ela é representada nas imagens com o aspecto de uma matrona, de seios volumosos, símbolo de maternidade fecunda e nutritiva.

Iemanjá no Brasil Editar

Iemanja3
Iemanjá, em ilustração de José Carlos Martinez
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No Brasil, Iemanjá é provavelmente a mais popular entre os orixás. Seu axé é assentado sobre pedras marinhas e conchas, guardadas numa porcelana azul. O sábado é o dia da semana que lhe é consagrado, juntamente com outras divindades femininas. Seus adeptos usam colares de contas de vidro transparentes e vestem-se, de preferência, de azul-claro. Olocum é lembrada por alguns terreiros como sua mãe, mas não incorpora nem recebe culto à parte.

O símbolo de Iemanjá é um abebé, um leque de metal prateado com a figura de um peixe. Fazem-se oferendas de patas, galinhas e cabras bancas, não se aceitando animais de outras cores. Seus pratos são também brancos: ebó de milho branco com mel, arroz e angu. É saudada com o brado de "Odôia!" ou "Odô-fé-iabá!". Suas iaôs dançam imitando os movimentos das ondas, ao ritmo vagaroso e pesado chamado sató, usado também para Nanã.

Diz-se na Bahia que há sete Iemanjás:

  • Iemowô, que na África é a mulher de Oxalá;
  • Iamassê, mãe de Xangô;
  • Euá (Yewa), rio que na África corre paralelo ao rio Ògùn e que frequentemente é confundido com Iemanjá em certas lendas;
  • Olossá, a lagoa africana na qual deságuam os rios.
  • Iemanjá Ogunté, casada com Ogum Alagbedé.
  • Iemanjá Assabá, manca e sempre fiando algodão.
  • Iemanjá Assessu, muito voluntariosa e respeitável.

As filhas de Iemanjá são voluntariosas, fortes, rigorosas, protetoras, altivas e, algumas vezes, impetuosas e arrogantes; têm o sentido da hierarquia, fazem-se respeitar e são justas mas formais; põem à prova as amizades que lhes são devotadas, custam muito a perdoar uma ofensa e, se a perdoam, não a esquecem jamais. Preocupam-se com os outros, são maternais e sérias. Sem possuírem a vaidade de Oxum, gostam do luxo, das fazendas azuis e vistosas, das jóias caras. Elas têm tendência à vida suntuosa mesmo se as possibilidades do cotidiano não lhes permitem um tal fausto. Na Bahia, Iemanjá é freqüentemente representada na forma de uma sereia, com longos cabelos soltos ao vento. Chamam-na também, Dona Janaína e Rainha do Mar. A origem do nome "Janaína" é controvertida: O dicionário Houaiss registra a tentativa da museóloga e folclorista Olga Cacciatore, de explicar esse nome como composição iorubá: iya "mãe" + naa "que" + iyin "honra", mas isso está longe de ser ponto pacífico. É possível que seja um diminutivo do nome das janas do folclore português e mediterrâneo, cujo nome deriva da deusa romana Diana e que também são imaginadas como sereias ou fadas das águas. Também é usado o nome Inaiê, talvez do tupi ina'ye, o inajé ou gavião-carijó (Rupornis magnirostris), cujo nome significaria, originalmente, "solitário".

Iemanjá é geralmente sincretizada com Nossa Senhora da Imaculada Conceição, festejada no dia 8 de dezembro. Entretanto, os baianos deixam de lado o sincretismo que liga Oxum a Nossa Senhora das Candeias, festejada no dia 2 de fevereiro, e organizam nessa data a principal festa para Iemanjá, na praia do Rio Vermelho, que atrai uma multidão imensa de fiéis e admiradores. Oferecem-lhe imensas cestas cheia de presentes, cartas e súplicas, que é coberta de flores e levada em um saveiro, à frente de uma procissão de barcos, para o alto-mar, onde são depositadas sobre as ondas. Se forem devolvidas à praia, é sinal de recusa da divindade.

No Rio Grande do Sul, assim como na Bahia, 2 de fevereiro é dia de Yemanjá, Festa e Procissão de Navegantes, sincretizada como Nossa Senhora dos Navegantes, que é a padroeira da cidade de Porto Alegre, capital do estado. Assim como Nossa Senhora da Boa Esperança, Nossa Senhora da Esperança, Nossa Senhora da Boa Viagem, Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Candelária ou ainda Nossa Senhora da Purificação é um dos muitos títulos pelos quais a Igreja Católica venera a Virgem Maria.

Uma das maiores festas ocorre em Rio Grande, devido ao sincretismo com Nossa Senhora dos Navegantes. Em Pelotas a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes vai até o Porto de Pelotas. Antes do encerramento da festividade católica acontece um dos momentos mais marcantes da festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Pelotas. As embarcações param e são recepcionadas por umbandistas que carregavam a imagem de Iemanjá, proporcionando um encontro ecumênico assistido da orla por várias pessoas.

A Festa de Navegantes em Porto Alegre é a maior festa religiosa da cidade, e homenageia Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira da cidade, e seu sincretismo afro-brasileiro. Originalmente constava de uma procissão fluvial, com embarcações que singravam o Estuário do Guaíba desde o cais do porto, levando a imagem da santa do centro da cidade até a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Hoje, por determinação impeditiva da Capitania dos Portos, a procissão é terrestre, levando a imagem desde a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no centro da cidade, até a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes.

Em 8 de dezembro, ocorre a festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia, padroeira da Bahia. Nesse dia, feriado municipal em Salvador, também é realizado, na praia da Pedra Furada, no bairro do Monte Serrat (também chamado Boa Viagem), a festa do presente de Iemanjá, manifestação popular que tem origem na devoção dos pescadores locais.

Iemanjá (Yemaya) em Cuba Editar

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Yemaya, de Sandra Stanton
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Yemaya2
Yemaya, outra representação
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Em Cuba, Yemaya é sincretizada com a Virgen de Regla. Sua festa, em 8 de setembro, dia da Natividade de Nossa Senhora no calendário católico, atrai sempre uma grande multidão. Como no Brasil, a orixá é associada mais às águas salgadas do que à água doce, como na África. Entretanto, em Cuba está mais viva a lembrança de Olocum, ali considerado um orixá andrógino, deus ou deusa do mar que foi seu pai e mãe e que recebe um culto específico. Diz-se que de Olokun nasceram sete Yemayas:

  • Yemaya Awoyó, a mas velha, que usa os trajes mais ricos e se protege com sete anáguas para fazer a guerra e defender seus filhos. Vive no mar e repousa na lagoa; come carneiro e, quando sai a passeio, usa as jóias de Olocum e coroa-se com Oxumaré, o arco-íris.
  • Yemaya Ogunte, azul-clara, vive nos recifes próximos da praia e é a guardiã de Olocum. Sob este nome é a mulher de Ogum, orixá da guerra; é uma amazona terrível que traz, pendurado na cintura, um facão e outros instrumentos de ferro de Ogum. Ela é severa, rancorosa e violenta; detesta pato e adora carneiro.
  • Yemaya Maylewo ou Maleleo, vive no mato, num lago ou numa fonte inesgotável, graças à sua presença. Como Oxum, ela tem relação com as feiticeiras. Tímida e reservada; incomoda-se quando se toca o rosto de sua iaô e retira-se da festa.
  • Yemaya Asaba, cujo olhar é insustentável. É muito altiva e escuta apenas virando-se de costas ou inclinando-se ligeiramente de perfil; é perigosa e voluntariosa. Usa uma corrente de prata no tornozelo. Ela foi a mulher de Orunmilá que escutou suas opiiões com respeito, apesar de ter usado os intrumentos da adivinhação quando ele estava ausente. Indignado, Orunmilá expulsou-a momentaneamente.
  • Yemaya Akura ou Akuara, Vive nas espumas do mar, aparece vestida com lodo do mar e coberta de algas marinhas. Muito rica e pouco vaidosa. Adora carneiro. Come com Nanã.É cultuada no ritual de abikus para a cura da mortalidade infantil. Não é raspada somente catulada.
  • Yemaya Apara, vive na água doce, na confluência de dois rios, onde se encontra com sua irmã Oxum. Ela dança alegremente e com bons modos; cuida dos doentes e prepara remédios.
  • Yemaya Asesu, mensageira de Olocum. Vive em água agitada e suja; é muito séria, come pato e é, também, muito lenta para atender aos pedidos de seus fiéis. Ela esquece o que se lhe pede e põe-se a contar meticulosamente as penas do pato que lhe foi sacrificado. Caso se engane nos seus cálculos, recomeça a operação, que se prolonga indefinidamente.

Mitos de Iemanjá Editar

  • Iemanjá foi casada pela primeira vez com Orunmilá, senhor das adivinhações, depois com Ọlọfin, rei de Ifé, com o qual teve dez filhos, dois dos quais, podem ser identificados com os orixás Oxumaré e Xangô. Iemanjá, cansada de sua permanência em Ifé, fugiu mais tarde em direção ao Oeste. Outrora, Olóòkun lhe havia dado, por precaução, uma garrafa contendo um preparado, pois "não se sabe jamais o que pode acontecer amanhã", com a recomendação de quebrá-la no chão em caso de extremo perigo. E assim, Iemanjá foi instalar-se no "Entardecer-da-Terra", o Oeste. Ọlọfin-Odùduà, rei de Ifé, lançou seu exército à procura de sua mulher. Cercada, Iemanjá, em vez de se deixar prender e ser conduzida de volta a Ifé, quebrou a garrafa, segundo as instruções recebidas. Um rio criou-se na mesma hora, levando-a para Òkun, o oceano, lugar de residência de Olóòkun (Olokum).
  • Iemanjá possuía seios mais que majestosos, ou somente um deles, segundo outra versão. Antes do casameno, ela preveniu o marido de que não toleraria a menor alusão desagradável ou irônica a esse respeito. Tudo ia muito bem e o casal vivia feliz. Uma noite, porém, o marido, embriagado com vinho de palma e não mais podendo controlar as suas palavras, fez comentários sobre seu seio volumoso. Tomada de cólera, Iemanjá bateu com o pé no chão e transformou-se num rio a fim de voltar para Olóòdun.
  • Ao criar o mundo, Olorum definiu os poderes e os trabalhos de cada orixá. Para Iemanjá sobraram apenas as tarefas domésticas da casa de seu esposo Oxalá. Muito chateada por ter sido esquecida por Olorum, desatou a reclamar dia e noite nos ouvidos do marido. Aonde Oxalá ia, Iemanjá ia atrás reclamando em altos brados, durante meses e meses.Tantas foram as queixas de Iemanjá que Oxalá enlouqueceu e já não sabia fazer mais nada, abandonou suas atribuições e ficava a cantarolar músicas sem sentido totalmente alheio do mundo. Diante disso a esposa desesperou-se. Sabia que não seria perdoada por Olorum e o castigo deste seria terrível. O mundo precisava muito da atenção e dos cuidados de seu marido. Arrependida, passou a cuidar do ori do esposo com banhos e muitas comidas, sempre feitos com carinho e amor. O desvelo dela foi tão grande que Oxalá curou-se. Olorum então, reconhecendo o bem que Iemanjá proporcionou a humanidade, deu-lhe o poder de cuidar dos oris de todos os homens da terra. Assim ela passou a ser a dona de todas as cabeças e a receber sacrificios como todos os outros orixás.

Iemanjá na Umbanda Editar

IemanjaUmbanda
A imagem tradicional de Iemanjá na Umbanda
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Na Umbanda, além de protetora da vida marinha, Iemanjá é principalmente a protetora da família e apara a cabeça dos bebês no momento de nascimento. Na tenda ou terreiro, dá sentido à comunidade e faz de sua convivência num ato familiar, criando raízes e dependência. Proporciona sentimento de irmão para irmão em pessoas que há bem pouco tempo não se conheciam e o sentimento de pai para filho ou de mãe para filho e vice-versa, nos casos de relacionamento dos pais-de-santo e mães-de-santo com seus filhos espirituais. O amor ao próximo, principalmente ao parentes, e a harmonia familiar são relacionados a Iemanjá.

As guias de Iemanjá são geralmente de cristal transparente, às vezes também brancas, azul-claras, verde-claras ou rosadas. É comemorada em 15 de agosto, dia dedicado a várias invocações de Nossa Senhora, notadamente Nossa Senhora da Glória e também na noite de 31 de dezembro, quando centenas de milhares de adeptos e simpatizantes, perto da meia-noite, acendem velas ao longo das praias, saltam sobre as ondas e jogam flores e presentes no mar. É também chamada Deusa das Pérolas, Senhora da Calunga Grande (o mar) e Senhora da Coroa Estrelada.

Em Rio Grande, Rio Grande do Sul, na comemoração católica da Nossa Senhora dos Navegantes, em 2 de fevereiro, a imagem da santa vai até o porto, onde as embarcações páram e são recepcionadas por umbandistas que carregam a imagem de Iemanjá.

A imagem de Iemanjá Editar

Na Umbanda, os orixás, na maioria, são tradicionalmente representados por estampas populares dos santos católicos com os quais são sincretizados. Iemanjá, porém, é uma exceção. A imagem de Nossa Senhora foi geralmente substituída pela imagem de uma mulher branca e esbelta que surge das águas, com longos cabelos pretos esvoaçando ao vento, coroada com um diadema de pérolas com uma estrela-do-mar no alto. Usa uma ampla túnica de musselina branca-azulada, com uma longa cauda da qual se desprendem rosas brancas e estrelas douradas que flutuam nas ondas. Possivelmente, foi influenciada por representações de Ísis ou "Ísis Sofia", em obras esotéricas e gnósticas.

Segundo Monique Augras, essa imagem esvaziada de conteúdo sexual, desafricanizada e moralizada, impôs-se como única representação de Iemanjá, a ponto de moldar a expressão corporal de suas sacerdotisas, ao passo que a figura de Pombagira, em contraste, assumiu toda a sensualidade subversiva e agressiva da sexualidade feminina.

Referências Editar

  • Pierre Fatumbi Verger, Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo, São Paulo: Corrupio, 1981
  • Romeo Graciano, "A Ação dos Orixás Sobre Seus Filhos" [1]
  • Povo de Aruanda [2]

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