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Ilha de São Brandão

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Imagem de São Brandão, o navegador

A Ilha de São Brandão, San Borondón ou Samborombón, como também aparece em mapas medievais, é uma ilha lendária relacionada à lenda de São Brandão (Bréanainn de Cluain Fearta ou Brendan de Clonfert, 484 d.C. – 577 d.C., aproximadamente), que supostamente a descobriu por volta de 512 d.C.

A ilha foi mencionada pela primeira vez em um texto provavelmente originário do século VIII, cujo manuscrito mais antigo é do século X, Navigatio Santi Brendani Abatis (A Navegação do Abade São Brandão). A versão mais conhecida foi escrita para o rei Henry Beauclerc e para a sua rainha Adelais, no começo do século XII.

A lenda de São Brandão Editar

A viagem do santo é descrita nas múltiplas versões da Navigatio Sancti Brendani, relato complementar à Vita Sancti Brendani cuja primeira versão escrita conhecida data dos séculos X ou XI (com uma tradução francesa datada de 1125. Há cerca de 125 manuscritos conhecidos, descrevendo diferentes variantes do périplo.

A viagem inicia-se com a partida de Brandão, acompanhado por um grupo de monges da sua abadia de Shanakeel (ou Baalynevinoorach), nas proximidades de Ardfert, costa ocidental da Irlanda, em busca da Ilha das Delícias, ou do Paraíso. De acordo com o antigo calendário eclesiástico irlandês, a viagem teria sido iniciada a 22 de Março (no qual a Igreja celta celebrava a festa do Egressio familiae Sancti Brendani). O número de companheiros varia, de acordo com as versões das viagens, de 18 a 150. Na referência mais antiga, uma litania composta no século VIII por São Ângus, são invocados os 60 que acompanharam São Brandão.

Versão holandesa Editar

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São Brandão e seus monges, no Manuscriptum translationis germanicae, de 1460

Des Reis van Sint Brandaen ("A Viagem de São Brandão") é uma versão holandesa encontrada em um manuscrito do século XII, derivada de um texto perdido em alto-alemão medieval. Descreve nove anos de viagem de Brandaen, monge de Galway que começaram como punição de um anjo que viu Brandão descrer de um livro sobre os milagres da criação e jogá-lo no fogo. O anjo lhe diz que a verdade fora destruída.

Em sua viagem, Brandaen encontra as maravilhas e horrores do mundo, tais como Judas congelando de um lado e queimando do outro, pessoas com cabeça de suíno, pernas de cão e dentes de lobo portando arcos e flechas e um enorme peixe que circunda o navio mordendo a cauda com a própria boca. O poema inglês Life of Saint Brandan é um derivado posterior dessa versão.

Versão francesa Editar

No início da Navigatio, São Barinto conta a Brandão sobre uma viagem que fez à Insula Deliciosa e a outra ilha chamada Terra repromissionis sanctorum, a “Terra Prometida dos Santos” (o Paraíso), uma ilha cheia de flores e pedras preciosas onde não há noite.

Intrigado, Brandão decide construir um coracle ou curragh (embarcação feita de couro esticado sobre armação de madeira, típica da Irlanda e Escócia) e partir para o Ocidente em busca dessa Terra Prometida, em companhia de 14 monges. À última hora, mais três monges, inicialmente descrentes, se juntam à peregrinação, que duraria sete anos e os levaria a muitas ilhas exóticas.

Começam por navegar para oeste durante quinze dias a partir da Irlanda, após o que são empurrados pelas correntes até a Ilha Selvagem onde são recebidos por um cão que os guia a uma vila despovoada. Ali permaneceram por três dias, sempre encontrando comida preparada para eles, apesar de não conseguirem ver pessoa alguma.

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São Brandão e Jasconius. A ilha de S. Brandão aparece representada a noroeste da Península Ibérica

Depois de mais sete meses de viagem, numa direção não assinalada, o grupo chegou a uma ilha onde abundavam os carneiros, a Ilha das Ovelhas.

Depois alcançaram outra ilha, desprovida de vegetação, que chamam inicialmente de Ilha Nua e na qual resolveram celebrar a Páscoa. Acenderam uma fogueira para se aquecerem, mas quando se sentaram ao redor do fogo, a ilha começou a mover-se. Correram para seu barco; quando chegaram, Brandão explicou que a ilha era na realidade o monstruoso peixe Jascônio, que lutava sem sucesso para morder a cauda com a própria boca (provavelmente uma versão local da mítica serpente marinha nórdica Jörmungandr - leia também Uróboro).

Ao final do primeiro ano de viagens, chegam a uma outra ilha, a Ilha dos Pássaros ou Paradisus Avium ("Paraíso das Aves"), habitada por pássaros de todo tipo que se unem aos monges em suas orações e lhes anunciam que deverão navegar ainda mais seis anos.

A profecia se cumpre. Seis vezes eles retornarão ao peixe Jascônio para celebrar a missa da Páscoa, embora abstendo-se de acender uma fogueira.

De volta ao mar, navegaram por três meses até que, exaustos, alcançaram uma ilha habitada por monges que haviam feito um estrito voto de silêncio e que ali haviam residido por oitenta anos, sem sofrer qualquer desgraça ou enfermidade.

Tornam a partir. Após algum tempo, ficam presos numa duradoura calmaria, que durará sete meses. Depois que esta foi ultrapassada, chegaram a uma parte onde os peixes são venenosos, perigo de que tomam conhecimento através de um pássaro branco. Por vezes, na crista das vagas flutuam grandes nozes contendo um líquido semelhante ao leite.

Partem depois para paragens onde o mar está adormecido e onde o sangue lhes gela nas veias, "mais forte que 15 touros furiosos". São perseguidos por uma serpente marinha que respira fogo, mas em resposta a uma oração do santo, surge outro monstro, que aniquila a serpente. De modo semelhante, mais tarde, um dragão salva-os de um grifo.

Uma vez ultrapassadas estas vicissitudes, São Brandão ruma ao norte, com seus frios e seu céu "com reflexos verde-pálidos, violeta e rosa desmaiado". À noite, "arcos luminosos aparecem sobre o veludo azul profundo do céu". Observam um enorme templo de cristal, um enorme pilar de cristal que se ergue do mar com um pálio prateado, como um imenso-guardas-sol, que levam três dias para rodear, através de um mar coberto de névoa.

Uma Ilha dos Ferreiros desprende uma fumaça com forte cheiro de enxofre e lança pedaços de escória derretida no barco de Brandão. Rios de fogo se lançam no mar.

Um demônio sobrevoa a sua embarcação e mergulha no mar. Encontram, no meio deste ambiente, uma ilha com uma montanha coberta por nuvens, onde se encontra a entrada para os Infernos e uma rocha estéril sobre a qual Judas Iscariotes é malhado pelas ondas, num breve repouso dos tormentos do Inferno que lhe foram garantidos em honra da ressurreição de Cristo. É a Ilha dos Danados, na qual dois dos companheiros de Brandão perecem, mortos por demônios.

Em seguida, abordam uma nova ilha habitada pelo eremita Paulo, que se veste apenas com seus longos cabelos e cujo único alimento são as águas de uma fonte muito pura. este lhes anuncia que seu objetivo está próximo. Pela última vez, celebram a missa da Páscoa sobre o dorso do grande peixe Jascônio e, terminada a cerimônia, este os leva para além da Ilha dos Pássaros, de onde navegam por mais quarenta dias antes de penetrarem na zona de trevas que protege o Paraíso.

É a última prova. Vêem-se então diante de uma terra dourada, cingida por por uma alta muralha ornada de pedras preciosas, na qual há uma porta protegida por dois dragões e uma espada de ouro e diamantes, que gira incessantemente. Com um gesto, o anjo que os guia afasta a espada e abre a porta.

Enfim, é a Ilha das Maravilhas, "a terra prometida aos santos, aureolada por uma claridade de nácar".

Tudo aí é paz e alegria. Uma luz maravilhosa banha todas as coisas e esta luz não é o sol que a dispensa, porque ela vem de toda a parte, e assim a sombra não reina em nenhum lugar. A noite nunca vem afogar tudo com suas trevas e as tempestades não sopram, carregando suas nuvens escuras. Nós colhemos frutas suculentas, de um tamanho nunca visto, e matamos nossa sede em riachos de leite e em límpidas fontes.
Não há desejo nosso que não seja logo satisfeito, e sempre, e por toda a parte, elevam-se no ar límpido os suaves acordes das harpas que os anjos fazem vibrar sob os seus dedos. Nenhuma palavra humana pode exprimir a emoção que sentimos, a felicidade que tomou conta de nós, a felicidade em que nos encontramos mergulhados.

É o Paraíso, que Brandão e seus homens finalmente alcançam depois de procurá-lo por sete anos. O anjo lhes mostra o Paraíso do alto de uma montanha e sugere que colham algumas das frutas e pedras preciosas da ilha para que todos saibam que realmente abordaram a terra prometida aos santos e aos justos. Retornam à Irlanda, onde Brandão morre, pouco depois.

Racionalizações Editar

Humboldt, observando estas passagens, especulou que o santo e os seus companheiros teriam navegado pelos mares ao norte da Irlanda. O geógrafo identificou a "Ilha dos Carneiros" da narrativa como as Feroés. Na mesma linha, a ilha infernal foi identificada com um vulcão da ilha Jan Mayen na Islândia. O pálio de cristal seria um icebergue e os arcos luminosos no céu a aurora boreal. Os demônios que mataram dois dos companheiros de São Brandão seriam ursos brancos e as nozes contendo leite açucarado lembram cocos, o que poderia significar que Brandão teria chegado também à latitude das Canárias.

Sejam quais forem os cenários reais por trás da lendária expedição do santo, que podem refletir algum conhecimento do extremo norte do Atlântico e das ilhas Canárias, o elemento mítico predomina quanto à natureza e ao objetivo da expedição, nada menos que o Paraíso. As provações que o Santo e os seus companheiros passam no mar não são mais do que uma iniciação que os prepara para esse fim glorioso.

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O curragh Brendan, de Tim Severin

Mesmo assim, houve quem levasse a história como indício de que os irlandeses chegaram à América - à Terra Nova, ou mesmo ao Brasil - antes de Colombo, o que equivale a tomar o Orlando Furioso de Ariosto como indício de que um cavaleiro de Carlos Magno chamado Astolfo esteve na Lua antes dos astronautas estadunidenses. Em 1976, o aventureiro irlandês Tim Severin construiu um curragh de couro de boi, de 4 toneladas e 11 metros de comprimento, e ao longo de dois verões velejou com ele da Irlanda, pelas Hébridas, Feroés e Islândia, até a Terra Nova, para mostrar que a viagem do santo seria factível. No seu livro The Brendan Voyage, disse ter encontrado icebergues e animais marítimos como baleias e golfinhos que, sugeriu ele, seriam as origens das visões fantásticas da lenda de São Brandão.

São Brandão nos mapas Editar

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Mapa de Ortelius, de 1595: a ilha de São Brandão aparece a leste das ilhas Britânicas e da também legendária ilha Brasil, uma de cada lado da figura do Tritão

A primeira representação cartográfica da ilha de São Brandão surge no mapa Hereford de 1275, com a inscrição Fortunate Insulae sex sunt Insulae Set Brandani, que surge associada a uma ilha perto da posição real das Canárias.

O segundo registo cartográfico aparece num portulano de Angelinus Dulcert, de 1339. Neste portulano, três ilhas aproximadamente na mesma posição do arquipélago da Madeira surgem com a legenda Insulle Sa Brandani siue puelan.

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Mapa Pizigani, de 1367, no qual São Brandão abençoa sua ilha, perto da localização real das Canárias

No mapa dos irmãos Pizzigani (1367) surge a legenda Ysole detur sommare sey ysole pone + le brandani, "ilhas chamadas do Sonho ou ilhas de São Brandão", associadas à figura de um monge abençoando a ilha. No grupo de ilhas ali figurado, a maior, com a legenda, recebe a designação de "Canária" e as Ilhas Desertas (ao norte da Madeira) aparecem em dimensões maiores do que as reais sob o nome de "Capirizia", enquanto a ilha de Porto Santo não recebe denominação.

No mapa de 1426 desenhado por Battista Beccario há a legenda Insulle fortunate santi brandany. Com pequenas variações este nome é aplicado à ilha da Madeira por Pareto (em 1455), por Benincasa (em 1482) e em um mapa anônimo de Weimar que é datado por uns de 1424 e por outros dos anos 1480.

No mapa de Andreas Bianco de 1448, a ilha Terceira, a maior do arquipélago açoriano, aparece com a legenda: Ya Fortunat de sa. beati blandan. O mesmo mapa indica Madeira, Porto Santo e a Deserta nos seus locais reais e com os nomes contemporâneos.

O globo de Behaim de 1492 coloca a ilha de São Brandão numa posição inédita, a ocidente de Cabo Verde, com Antília a seu norte. Esta localização pode ter sido sugerida por uma linha costeira indefinida no mapa Bianco de 1448 que se encontra na sua posição aproximada. Também o mapa de Juan de la Cosa (de 1500) exibe a costa brasileira numa linha semelhante à do mapa de Bianco.

No diário de Cristóvão Colombo, na data de 9 de agosto de 1492, está escrito que "muitos espanhóis respeitáveis da ilha de El Hierro, que estavam em Gomera com Cona Inez Peraza, mãe de Guillen Peraza, depois primeiro conde de Gomera, asseguraram que todo ano viam terra a oeste de Gomera e outros de Gomera aformaram o mesmo sob juramento. O Almirante lembra que, quando estava e Portugal, em 1484, uma pessoa chegou a rei (João II) da ilha da Madeira para implorar por uma caravela para ir a essa terra que foi vista e que ele jurou que podia ser vista todo ano, sempre da mesma maneira."

Pelo tratado de paz de Elvira, assinado em 4 de junho de 1519, a coroa portuguesa concedeu à coroa de Castela todas as reivindicações relativas às ilhas Canárias, inclusive La Isla Non-Trabada o Encubierta, que seria a oitava ilha do arquipélago, ainda não descoberta .

No mapa de 1544 de Sebastian Cabot, a ilha de São Brandão é colocada na mesma região onde Cabot e o seu pai teriam efetuado as suas navegações, ou seja, aproximadamente na mesma latitude dos estreitos de Belle Isle.

Referências Editar

  • Jorge Magasich-Airola e Jean-Marc de Beer, América Mágica: quando a Europa da Renascença pensou estar conquistando o Paraíso. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
  • São Brandão [1]
  • Wikipedia (em inglês): St. Brendan's Island [2]
  • Chet Van Duzer, "From Odysseus to Robinson Crusoe: A Survey of Early Western Island Literature" [3]

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