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Pomponius Mela

Reconstrução do mapa-múndi de Pomponius Mela (37 d.C.), com as Ilhas Afortunadas ao largo da costa da África

Macaronesiaamplio

A Macaronésia, segundo Francisco García-Talavera C.

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A Macaronésia central em 16.000 a.C., segundo Francisco García-Talavera C.

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As Paleocanárias em 16.000 a.C., segundo Francisco García-Talavera C.

Segundo Hesíodo, Píndaro e vários outros autores da Antiguidade, Ilhas Afortunadas, Ilhas Abençoadas ou Ilhas dos Bem-Aventurados (em grego, νῆσοι μακάρων , nêsoi makárôn , em latim Fortunatae Insulae), era o lugar de repouso dos heróis após a morte, distinto do reino de Hades, destinado aos mortos comuns e do Tártaro, reservado aos inimigos dos deuses. Outros autores designam o mesmo mito como Campos Elísios (do grego Pedios Êlysion, provavelmente do verbo eleusô ou eleuthô, "aliviar" ou "libertar") e Ilha Branca (do grego Nêsos Leukê, latin Insula Alba).

As Ilhas Afortunadas no mito Editar

A primeira referência ao nome das Ilhas Afortunadas ocorre em Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo (700 a.C.):

Zeus, o filho de Cronos, fez mais uma [raça humana], a quarta, sobre a terra fecunda, que era mais nobre e justa, uma raça de heróis semelhantes aos deuses que foram chamados semideuses [hemitheoi], a raça antes da nossa própria, sobre a terra sem limites. A guerra severa e batalhas terríveis destruíram uma parte deles, alguns na terra de Cadmo na Tebas de sete portas, quando lutaram pelos rebanhos de Édipo e outros, quando foram levados em navios sobre o grande golfo de mar para Troia por causa de Helena de belos cabelos: ali a morte os levou. Mas para outros, Zeus, o filho de Cronos, deu vida em uma morada distante dos homens e os fez viver nos confins da terra. E eles vivem intocados pela tristeza nas Ilhas Afortunadas [Nesoi Makarôn], ao longo das costas do profundo e serpenteante Oceano, heróis felizes para os quais a terra generosa em grãos oferece frutos doces como o mel que florescem três vezes por ano, longe dos deuses imortais e Cronos os governa; pois o pai dos homens e dos deuses o libertou de sua prisão. E eles vivem igualmente em honra e glória.

O poeta Píndaro (século V a.C.) retorna ao tema na Ode Olímpica (2.57):

Quando eles morrem, corações impiedosos pagam a penalidade devida; um juiz [Minos ou Radamanto] julga sob a terra os pecados deste mundo e uma necessidade terrível dita a palavra da perdição.
Mas o bom, pelas noites e dias sem fim, sob a brilhante luz do sol, não trabalha o solo com suas mãos, nem o mar largo por uma vida pobre, mas desfruta uma vida sem labuta; com os humanos honrados pelos céus, que mantêm alegremente a palavra jurada, passam uma era livre de lágrimas, enquanto os injustos suportam a dor como nenhum olho aguentaria ver.
Mas aqueles que têm a grande coragem, três vezes de cada lado da morte, de manter seus corações imaculados de toda a injustiça, estes viajam pela estrada de Zeus à torre de Cronos. Lá estão as Ilhas Afortunadas [Nesoi Makaron], brincam os ventos do Oceano e ardem flores douradas. Alguns desfrutam as águas, outros a terra de árvores gloriosas e tecem grinaldas e coroas de flores com suas mãos, sob os justos decretos de Radamanto, sentado à destra do grande pai, marido de Reia, deusa que tem o mais alto de todos os tronos. Peleu e Cadmo são desse número e ali, quando as orações de Tétis prevaleceram no coração de Zeus, a mãe trouxe Aquiles, aquele que fez cair Heitor, o pilar invencível e inflexível de Troia, e trouxe a morte a Cicno e ao etíope filho de Eos [Memnon].

Lê-se também, em outro fragmento de Píndaro:

Mas, como esses de quem Perséfone cobrará a penalidade das dores pristinas, no nono ano ela mais uma vez restaurará suas almas à luz do sol superior; e os transformará em monarcas augustos e em humanos ágeis em força e supremos em sabedoria; e, por todos os tempos futuros, os humanos os chamarão heróis santificados.

Aparentemente, Píndaro acreditva que, depois da morte, a alma era julgada no Hades e se considerada inocente, passava à morada subterrânea do Elísio. Entretanto, ela precisava retornar duas vezes à terra e sofrer mais duas mortes. Finalmente, depois de mais nove anos, Perséfone o libertava e o devolvia à terra para habitar um corpo augusto, livre da necessidade de mais atribulações, que passaria por fim às Ilhas Afortunadas no rio Oceano, o lugar final do repouso das melhores almas.

As ilhas Afortunadas e as Canárias Editar

Nos tempos mais antigos, essas ilhas eram localizadas em algum lugar do "Rio Oceano". Com o aumento do conhecimento de geografia dos gregos, tentou-se racionalizar o mito e situá-las de maneira mais precisa no mundo real.

As ilhas Canárias podem ter sido visitadas pelo explorador cartaginês Hannon em sua viagem de circunavegação da África em 570 a.C., do qual pode ter se originado a tradição citada por Flávio Filóstrato, mas a primeira referência clara encontra-se em Plínio, que cita a viagem do rei Juba II da Mauritânia às ilhas em 40 a.C. e se refere a elas como Ilhas Afortunadas (Fortunatae Insulae). Nesse documento também aparece pela primeira vez o termo "Canária", referindo-se provavelmente à Grã-Canária. Segundo Plínio, o nome foi dado à ilha devido a grandes cães mastins que os enviados de Juba ali teriam capturado e levado à Mauritânia, mas outros o atribuem ao nome de um grupo berbere da costa africana também citado por Plínio, os Canarii e o historiador José Juan Jiménez afirma que os "cães" eram leões-marinhos.

O geógrafo Pompônio Mela as situou pela primeira vez no mapa e Ptolomeu as usou, por situarem-se no Extremo Ocidente do mundo conhecido, como referência para a medida da longitude geográfica para dar longitudes positivas a todas as terras então conhecidas, tradição continuada durante a Idade Média.

Plutarco, na Vida de Sertório diz que este, ao lutar na guerra civil dos últimos anos da República Romana, foi informado por marinheiros da existência de certas ilhas a alguns dias de navegação da Hispânia,

onde o ar nunca era extremo, que em vez de chuva tinha um leve orvalho prateado, que de si mesmas e sem trabalho produziam todas as frutas agradáveis para seus felizes moradores, de maneira que lhe pareceu que não poderiam ser outras que não as Ilhas Afortunadas, os Campos Elísios.

Desses homens, Sertório ouviu histórias tão encantadoras que encontrar essas ilhas e aposentar-se ali passou a ser a ambição de sua vida:

Dizem que as ilhas são duas, separadas por um estreito muito apertado e ficam a dois mil estádios (370 km) da África. São chamadas Ilhas Afortunadas (...)
Um ar salubre, devido ao clima e às mudanças moderadas das estações, prevalece nas ilhas. Os ventos Norte e Leste que sopram de nossa parte do mundo mergulham em um espaço insondável e, devido à distância, dissipam-se e perdem seu poder antes de atingir as ilhas, enquanto os ventos Sul e Oeste que às vezes envolvem as ilhas trazem chuvas suaves e intermitentes, mas na maior parte do tempo as refrescam com brisas úmidas e nutrem gentilmente o solo. Assim, estabeleceu-se a firme crença, mesmo entre os bárbaros, de que ali estão os Campos Elísios e a morada dos Bem-Aventurados sobre os quais cantou Homero.

A História Natural de Plínio acrescenta à descrição convencional - segundo a qual elas "abundam em frutos e aves de todo tipo - um detalhe inesperado: "Essas ilhas, porém, são muito perturbadas pelos corpos de monstros em putrefação, constantemente levados pelo mar".

Segundo o livro 2 da Vida de Apolônio de Tiana (217 d.C. - 238 d.C), de Flávio Filóstrato, "dizem que as Ilhas Afortunadas ficam nos limites da Líbia, onde se erguem na direção do promontório desabitado". Nessa geografia, considera-se que a Líbia estende-se para oeste através da Mauritânia "até a foz do rio Sálex, cerca de 900 estádios; além desse ponto não é possível calcular distâncias, porque além desse rio a Líbia é um deserto que não sustenta população."

As Ilhas Afortunadas na Idade Média Editar

Schedel weltkarte

Mapa-múndi da "Crônica de Nuremberg" (1493), baseado em Ptolomeu, com as Ilhas Afortunadas no extremo ocidente

Na alta Idade Média europeia, as Ilhas Afortunadas ficaram ligadas à lenda das viagens de São Brandão, o monge irlandês que as teria visitado e nelas teria encontrado o jardim do Éden ou Paraíso Terrestre (confira Ilha de São Brandão). Outras ilhas lendárias do folclore celta, como a Ilha Brasil e Avalon, também foram associadas ao mito grego.

A partir do século XIII as Ilhas Afortunadas foram progressivamente identificadas com as Canárias do rei Juba, visitadas ocasionalmente pelos árabes e redescobertas e colonizadas por europeus a partir do século XIV.

O meridiano de origem foi inicialmente marcado pela Ilha Tenerife, mas em 1634, o rei Luís XIII ordenou que o meridiano zero fosse mais precisamente localizado na Ilha do Ferro, a mais ocidental das Canárias, que continuou a ser uma referência comum para as longitudes até 1884, quando uma convenção internacional o substituiu pelo meridiano de Greenwich.

No século XX, o nome grego original de makárôn nêsoi foi adotado pela biogeografia para referir-se à região ecológica formada pelos arquipélagos de Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde e também por parte da costa marroquina. No passado, durante o Paleolítico Superior (Idade do Gelo), a região incluiu também outras ilhas hoje submersas, que serviram como "ponte" para a passagem de espécies animais e vegetais entre as ilhas hoje restantes e separadas por grandes distâncias.

Referências Editar

  • Theoi: Elysium, Island of the Blessed [1]
  • Wikipédia (em português): Ilhas Afortunadas [2]
  • Francisco García-Talavera C., "La Macaronesia" [3]

Ver também Editar

Campos Elísios

Leuke

Hespéria

Ilha de São Brandão

Avalon

Ilha Brasil

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