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Odalisca, de Fenner Behmer Hermann (1866-1913)

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Dólmen em Lapa dos Mouros, Portugal

As mouras encantadas ou moiras encantadas são imaginadas no folclore português como jovens enfeitiçadas para guardar os tesouros abandonados pelos mouros expulsos da Península Ibérica. Aparecem junto de nascentes, rios, grutas, ruínas de fortalezas pré-históricas conhecidas como "castros" ou "citânias". Túmulos pré-históricos como os dólmens (comuns em Portugal, onde são chamados antas, palas, orcas ou arcas) são muitas vezes chamados de "casa da moura" ou "toca da moura".

Vistas a cantar e se pentear com pentes de ouro, as mouras prometem seus tesouros a jovens dispostos a desencantá-las com certas oferendas (geralmente de pão ou leite), de preferência no dia de São João. Vale notar que, em tempos pagãos, pão era oferecido aos mortos e leite às fontes e às serpentes. Às vezes, as mouras tomam a forma de mulher-serpente (e nesse caso devem ser desencantadas com um beijo) ou têm asas e vivem em um lugar mítico conhecido como "mourama".

Segundo Leite de Vasconcelos, “são seres obrigados por oculta força sobrenatural a viverem em certo estado de sítio como que entorpecidos ou adormecidos, enquanto determinada circunstancia lhes não quebrar o encanto” [1].

As lendas descrevem as mouras encantadas como jovens donzelas de grande beleza ou encantadoras princesas e, segundo Alexandre Parafita, “perigosamente sedutoras” [2]. As mouras aparecem frequentemente cantando e penteando os seus longos cabelos, louros como o ouro ou negros como a noite, com um pente de ouro e prometem tesouros a quem as libertar do encanto.

Tudo isto parece ter muito pouco a ver com os mouros históricos - mesmo que se queira pensar nas djinns das Mil e Uma Noites. Parece possível que os portugueses, depois de expulsarem os mouros propriamente ditos, tenham confundido seu nome com o de entidades muito mais antigas.

No folclore basco, existe a deusa Mari e os Mairu, gigantes que teriam construído os dólmens e outros monumentos pré-históricos. Nas línguas celtas, mori pode ser lago, mar ou pântano, morwen ou mahra, espírito e mori-morwen, um espírito das águas análogo às janas. Nas ilhas Britânicas, nomes como Muir, Mor, Mhor, More e mesmo Moor (que pode também significar "mouro"), cognatos do celta mori, estão freqüentemente associados a monumentos megalíticos.

Outra possibilidade é que as "mouras encantadas" sejam, na verdade, descendentes das Moiras da mitologia grega - Cloto, Láquesis e Átropos, as deusas do destino, temidas pelos próprios olímpicos, que fiam com sua roca a vida dos mortais, medem-na com uma régua e decidem seu fim com a tesoura.

Variantes Editar

A Princesa Moura é uma muçulmana encantada que habita um castelo e apaixona-se por um cavaleiro cristão do tempo da Reconquista. Na lenda da Moura Salúquia (ver abaixo), em vez de um cristão, o amor da Princesa Moura é um mouro, um muçulmano. Muitas destas lendas querem explicar a origem de uma cidade e evocam personagens históricas, outras apresentam um carácter religioso como acontece na lenda de Oureana. Os lugares, as pessoas e acontecimentos situam-se num mundo real e existe uma localização temporal bem definida. É possível que fatos reais se tenham simplesmente fundido com antigas narrativas lendárias.

A Moura-fiandeira, segundo as lendas, transporta pedras sobre a cabeça e fia com uma roca à cintura. A tradição popular atribui a estas mouras a construção de castros, citânias, e outros monumentos megalíticos. As moedas antigas encontradas nas citânias e castros eram chamadas de "medalha das mouras". A Pedra Formosa encontrada na Citânia de Briteiros terá sido, segundo narrativas populares, levada à cabeça para este local por uma moura que fiava uma roca.

A Pedra-Moura é uma outra variante de moura encantada. Conta-se que quem se sentasse numa destas pedras ficaria encantado, ou se alguma pedra encantada fosse levada para casa os animais poderiam morrer. Acreditava-se, também, que as "Pedras moura" guardavam riquezas encantadas [3]. Existem varias lendas em que a moura em vez de ser uma pedra vivem dentro de uma pedra. Na tradição popular diz-se que no penedo «entra-se para dentro» e «sai-se de dentro» dizer possivelmente relacionado com as lendas das mouras. A moura é, também, descrita a viajar para a mourama sentada numa pedra que pode flutoar no ar ou na água. Dentro de grutas e debaixo das pedras muitas lendas falam que existem palácios com tesouros.

A Moura-serpente é uma moura encantada que pode tomar a forma de uma serpente. Algumas destas mouras serpentes, ou mouras cobra como tambem são chamadas, podem ter asas e podem aparecer como meio mulher meio animal como na lenda da serpente de Noudar ou do Monte d'Assaia.

A Moura-Mãe toma a forma de uma jovem encantada que está grávida e a narrativa centra-se na busca de uma parteira que ajude no nascimento e na recompensa que lhe é dada.

A Moura-Velha é uma mulher idosa; as lendas em que aparecem mouras com figura de velha não são frequentes.

Alfátima Editar

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Fátima representada no "Restaurante Alfátima" (Manteigas, Portugal)

Segundo uma lenda de Manteigas, vila portuguesa sobre a Serra da Estrela, na Beira Alta, os mouros, quando se foram embora, não puderam levar as muitas riquezas que tinham e por isso as esconderam onde ninguém pudesse chegar e pusaram-lhe guardas encantadas, que eram sempre lindas mouras.

O rei mouro de Manteigas tinha uma filha chamada Fátima, muito formosa e a quem sobretudo estimava. Ao ser ameaçado pelos cristãos, fugiu pelas mais ocultas veredas da serra, levando Fátima e as suas riquezas.

Ao chegar a noite, Fátima desfalecia de cansaço, quando surgiu um caminho enxuto, calçado de pedras finas, e no fim uma luz que tudo iluminava. Voltaram-lhes as forças com a esperança e em poucos minutos o rei, a filha e os que o acompanhavam entram em um magnifico palácio, onde tudo era tão grandioso que o próprio rei ficou deslumbrado.

No outro dia, desceram da serra uns pastores que ninguém conhecia e demoraram-se algum tempo na terra. Fizeram repetidas romarias, quando a estação o permitia, ao pico que eles chamaram pela primeira vez Coruto de Alfátima. Por fim, desapareceram sem haver mais notícia deles. Eram mouros disfarçados de pastores, e por eles se soube que uma fada, madrinha de Fátima, a guardara no seu palácio encantado, até que viessem tempos de paz para os mouros.

Essa tradição já era conhecida quando, numa madrugada de São João, antes do sol nascer, passou pelo Coruto de Alfátima uma pobre mulher. Cansada de ter atravessado a serra, sentou-se um pouco no tal Coruto, e enquanto comia um bocado de pão, viu a seu lado um grande estendal de figos secos, que alguém parecia ter esquecido na véspera. Guardou no seu cestinho alguns para hora de menos fortuna, depois partiu.

Indo por seu caminho veio-lhe a vontade dos figos, e quando retirou a mão do cesto viu, com grande espanto, que trazia umas poucas de peças de ouro de muito grande tamanho e peso. Veio em seguida a cobiça. A mulher, que horas antes se contentava de poder matar a fome com figos secos, já se não satisfazia com um bom cento de peças e voltou atrás, já a tempo de que os primeiros raios do sol dourassem aqueles píncaros. Não voltou a encontrar os figos e ouviu uma voz que lhe falava assim:

Tudo era teu quanto viste;
Agora tornaste em vão,
São passes mais nestes sítios Na manhã de São João:
Não te perdeu a pobreza
Pode perder-te a ambição.

A mulher, com o bom pecúlio que tinha trazido, começou a prosperar e só passados alguns anos é que se soube do caso.

A Moura Salúquia Editar

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Torre de taipa do Castelo de Moura, remanescente da fortificação muçulmana original

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Brasão da Cidade de Moura, Portugal

Segundo uma lenda da cidade de Moura, Portugal, a princesa e governadora da cidade (então chamada Al-Manijah), de nome Salúquia, filha de Abu-Hassan, se apaixonou pelo alcaide de Aroche, Bráfama. Na véspera do matrimónio, Bráfama dirigiu-se então com uma comitiva para Moura, a dez léguas de distância. Mas todo o território alentejano a norte e oeste tinha já sido conquistado pelos cristãos, e a jornada revelava-se perigosa. Entretanto, D. Afonso Henriques encarregara dois fidalgos, os irmãos Álvaro Rodrigues e Pedro Rodrigues, de conquistar Al-Manijah.

Estando ao corrente dos preparativos matrimoniais que aí se desenrolavam, emboscaram-se num olival perto dos limites da povoação. Surpreendidos pela acção dos cavaleiros cristãos, a comitiva de Aroche foi facilmente vencida, e Bráfama, morto. Então, disfarçando-se com as vestes dos muçulmanos, os fidalgos cristãos dirigiram-se para a cidade. Do alto da torre do castelo, onde aguardava a chegada do seu noivo, e vendo aproximar-se um grupo de cavaleiros aparentemente islâmicos, Salúquia julgou tratar-se da comitiva de Aroche, ao que ordenou que lhes franqueassem as portas da fortificação.

Mas mal transpuseram a muralha, os cristãos lançaram-se sobre os defensores da cidade, tomados de surpresa, e conquistaram o castelo. Salúquia apercebeu-se então do erro que tinha cometido e, ferida pela certeza da morte de Bráfama, tomou as chaves da cidade e precipitou-se da torre onde se encontrava.

Comovidos pela história de amor que os sobreviventes islâmicos lhes contaram, os irmãos Rodrigues teriam renomeado a cidade para Terra da Moura Salúquia. O tempo encarregar-se-ia de transformar esta designação para Terra da Moura, até que evoluíu para a actual forma de Moura.

A uma torre de taipa do Castelo de Moura ainda hoje se chama a Torre de Salúquia, e a um olival nas proximidades de Moura, aquele onde supostamente teriam sido emboscados Bráfama e a sua comitiva, o povo chama Bráfama de Aroche.

Nas armas da cidade figura, deitada no chão, uma moura morta, com uma torre em segundo plano, numa alusão à Lenda da Moura Salúquia.

A serpente de Noudar Editar

Conta-se que, no interior do castelo de Noudar, no Alentejo (Portugal), habita uma serpente adornada por um monho (topete postiço), de trança na cabeça. Esta serpente, que seria uma moura encantada, sairia apenas durante a noite.

Veja também Editar

Elfos

Fadas

Janas

Lamiak

Mari

Sidhe

Referências Editar

  1. Vasconcelos, José Leite. (1938). Opusculos (Ed), Volume V , Etnologia (Parte I), Lisboa Imprensa Nacional, p. 496 [1]
  2. Leal, Filipa. (10 Abril 2006), Que mouros são esses?, in PJ, Diário de Trás-os-Montes[2]
  3. Brandão,Abílio.(1911).Lendas de Mouras encantadas. Revista Lusitana, Volume XIV, Livraria Clássica Editora, Lisboa [3]

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