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John William Waterhouse - Pandora

Pandora, de John William Waterhouse (1896)

Allegory of Vanity

Alegoria da Vaidade (Pandora) de Niccolò Renieri (1626)

Pandora (do grego Πανδώρα, Pandôra, "todos os dons") foi, na mitologia grega, a primeira mulher.

Hesíodo Editar

Segundo a Teogonia de Hesíodo, Hefesto, a pedido de Zeus, que desejava castigar os homens por causa dos "crimes" de Prometeu, modelou-a em argila e, em seguida, animou-a, deu-lhe vida. Para torná-la irresistivel o deus coxo teve a cooperação de muitos imortais. Atena ensinou-lhe a arte da tecelagem, adornou-a com a mais bela indumentária e ofereceu-lhe o seu próprio cinto. Afrodite deu-lhe a beleza e insuflou-lhe o desejo indomável, que atormenta os membros e os sentidos. Hermes encheu-lhe o coração de artimanhas, impudência, ardis, fingimento e cinismo. As Cárites e a augusta Peito embelezaram-na com lindíssimos colares de ouro e as Horas coroaram-na de flores primaveris. Por fim, o astuto deus Hermes interveio mais uma vez, concedeu-lhe o dom da palavra e chamou-a Pandora como se fosse um presente de todos os deuses. Um presente funesto para punir os homens aos quais Prometeu concedera o fogo, furtado do céu.

Em Os Trabalhos e os Dias, Hesíodo volta a relatar que Zeus, satisfeito com a cilada que armara contra os mortais, enviou Hermes com o presente a Epimeteu, "o que aprende e vê depois". Este se esquecera da recomendação de seu irmão Prometeu, "o que vê antes", de jamais receber um presente de Zeus, se desejasse livrar os homens da desgraça. Epimeteu, porém, aceitou-a e só quando o infortúnio o atingiu foi que ele compreendeu.

A espécie humana vivia tranqüila, ao abrigo do mal, da fadiga e das doenças, mas quando Pandora, por curiosidade feminina, abriu a jarra (pithos) de larga tampa, que trouxera do Olimpo como presente de núpcias a Epimeteu, dela evolaram todas as calamidades que até hoje atormentam os homens.

Expectativa (Élpis) permaneceu presa junto às bordas da jarra, porque Pandora recolocara a tampa rapidamente, por desígnio de Zeus. É assim que, silenciosamente, porque Zeus lhes negou o dom da palavra, as calamidades e misérias, dia e noite, visitam os mortais.

Outros autores Editar

Na Ilíada, Homero diz que

Há dois jarros (pithoi) na soleira da porta de Zeus, diferentes como os presentes que contêm: uma de males (kakoi), outra de bênçãos (dôroi). Se Zeus que se delicia com o trovão os mistura e envia ao homem, este oscila e ora tem azar, ora boa sorte. Mas quando Zeus lhe dá do jarro das tristezas, faz do homem um fracasso, a fome o arrasta sobre a terra brilhante e ele vagueia sem ser respeitado por deuses ou mortais.

Em um fragmento preservado do Catálogo das Mulheres, poema também atribuído a Hesíodo, mas provavelmente posterior, diz-se que:

A jovem Pandora, nos salões do orgulhoso Deucalião,
a pedido de Zeus, o pai de todos os deuses,
fez amor e pariu Graico, firme na batalha.

Segundo citação do mesmo catálogo, por um autor tardio: "Hesíodo diz no primeiro de seus Catálogos que Deucalião era o filho de Prometeu e Pandora e que foi de Prometeu (ou Deucalião) e Pirra que nasceu Heleno, do qual derivam os helenos e a Hélade".

Segundo o geógrafo Estrabão, a própria Pandora era mãe de Deucalião.

O pseudo-Apolodoro e o pseudo-Higino acrescentaram que Epimeteu e Pandora tiveram uma filha, Pirra, que casou-se com Deucalião e sobreviveu com ele ao dilúvio grego.

Segundo uma variante contada pelo poeta Teógnis de Mégara (século VI a.C.), a jarra estava repleta não de males, mas de bens que escaparam e retornaram à mansão dos deuses. A esperança, porém, ficou:

Expectativa (Élpis) é o único bom deus que permanece entre a humanidade
os outros nos abandonaram e se foram para o Olimpo.
Confiança (Pístis), um poderoso deus, se foi. Moderação (Sofrósine) se foi dos homens,
e as Graças (Cárites), meus amigos, abandonaram a Terra.
Os juramentos dos homens não mais merecem confiança, nem ninguém
mais reverencia os deuses imortais; a raça dos homens piedosos pereceu e
os homens não mais reconhecem as regras de conduta ou atos de piedade.

Teógnis parece estar recordando um mito no qual o jarro continha bênçãos em vez de males e seguindo uma tradição possivelmente anterior a Hesíodo, preservada pelo fabulista Bábrio, do século II, segundo a qual os deuses enviaram uma jarra contendo bênçãos para os humanos que um "homem tolo" (não Pandora) abriu de maneira que a maioria deles se perdeu. Só ficou a Esperança, "para prometer a cada um de nós as coisas boas que fugiram".

Versão semelhante (sem citar explicitamente Pandora) aparece nas fábulas 525 e 526 de Esopo:

525: As Coisas Boas eram muito fracas para se defenderem das Coisas Más, assim est as expulsaram para o céu. As Coisas Boas então perguntaram a Zeus como poderiam alcançar a humanidade. Zeus lhes disse então que não deviam ir todas juntas, mas uma de cada vez. É por isso que as pessoas são constantemente acossadas por Coisas Más, já que elas estão por perto, enquanto as Coisas Boas vêm de raro em raro, pois precisam descer do céu para nós, uma de cada vez.
526: Zeus juntou todas as coisas boas num jarro e lhe pôs uma tampa. Então, deixou o jarro em mãos humanas. Mas oo homem não tinha autocontrole e quis saber o que havia no jarro, então tirou a tampa e deixou todas essas coisas voltarem à morada dos deuses. Assim, todas as coisas boas voaram para longe, muito alto sobre a Terra e só a Expectativa (Élpis) foi encontrada entre as pessoas, prometendo que daria a cada um de nós as coisas boas que se foram embora. (versão transmitida pelo fabulista Babrius).

Na tragédia Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, encontra-se o seguinte diálogo:

Prometeu - Sim, fiz os mortais deixar de esperar sua perdição (moros).
Coro - Qual foi a cura que você encontrou para essa aflição?'
Prometeu - Eu fiz expectativas (elpides) cegas morarem em seus peitos.
Coro - Foi um grande favor que você fez aos mortais.

Na tradição de representação visual da pintura ática de vasos de figuras vermelhas, às vezes independente do testemunho escrito, a parte superior de Pandora saindo da terra, "uma deusa ctônica como a própria Terra", às vezes rotulada como Pandora.

Problemas de tradução e interpretação Editar

Pithos Louvre CA4523

Pithos cretense (675 a.C.)

Wedding procession

Pyxis (caixa ou boceta) ática, 440-430 a.C.

Anesidora

A criação de [A]NESIDORA por Atena e Hefesto, em kylix de 460 a.C.

A tradução errônea de pithos, uma grande jarra para armazenar azeite ou grãos (freqüentemente semi-enterrada no chão), mais próxima da função ocidental de um "tonel" como "caixa" costuma ser atribuída ao humanista Erasmo de Rotterdam no século XVI, quando verteu Hesíodo para o latim. Erasmo traduziu pithos para o latim pyxis, "caixa" e tornou-se proverbial a frase "caixa de Pandora" ou "boceta de Pandora". Embora no Brasil moderno seja usada quase que só com a conotação chula, o significado próprio e original de boceta (ainda usual em Portugal) é o de uma caixinha redonda, oval ou oblonga, para guardar pequenos objetos, ou seja, uma pyxis.

O nome do dáimon que permanece no pithos também dá motivo a diferentes interpretações. O nome grego Élpis foi tradicionalmente traduzido como "Esperança", palavra que hoje, em grande parte devido à tradição cristã, tem conotações inequivocamente positivas. Para os gregos antigos, entretanto, essa palavra significava mais exatamente "expectativa", referindo-se tanto a coisas boas quanto às más (e a estas, ao que parece, com mais freqüência).

Também há divergências sobre se o aprisionamento de Élpis no jarro significa sua presença entre os humanos ou sua separação destes. Isso dá motivo a diferentes interpretações do mito de Hesíodo:

  • Os males aprisionados no jarro escaparam e passaram a flagelar os humanos, ao passo que a bênção da "Esperança" permaneceu trancada e inacessível a eles - é a leitura mais pessimista.
  • Mas, se o jarro estava cheio de males, o que faria uma bênção como a "Esperança" entre elas? Teria mais afinidade com eles caso se tratasse de "Expectativa", principalmente expectativa do mal. Nesse caso, apesar de perturbada por todos os males, a humanidade ao menos foi poupada de estar continuamente na expectativa do pior, o que tornaria a vida insuportável.
  • A terceira interpretação, a mais comum e otimista, é que o jarro havia servido de prisão para os males que escaparam, mas passa a servir de residência para "Esperança", que assim amenizaria o castigo.

A conotação grega de pithos é, porém, de uma reserva de alimentos, uma despensa. Algo a ser usado quando se necessita, o que faria mais sentido caso se admita que a versão original do mito se referia a um presente bem-intencionado dos deuses, uma coleção de bens que não Pandora, mas, como na fábula de Esopo, o homem (ou, talvez, Epimeteu, destinado ao papel de tolo) inadvertidamente deixou escapar - a não ser pelo último deles, a "Expectativa", que nas leituras dos próprios antigos desse mito sempre foi tomada como um bem.

Hesíodo teria invertido a significação original do mito. Pandora teria sido, originalmente, não a "toda-dotada", mas a "toda-doadora". Um nome alternativo, atesado em um kylix de 460 a.C. é Anesidora, "a que envia presentes". Nesse vaso, Hefesto e Atena lhe dão os toques finais, como na Teogonia.

Anesidora também é um epíteto aplicado a Gaia ou Deméter e é possível que Pandora representasse um de seus aspectos. Em várias pinturas de vasos, Pandora aparece emergindo da terra, com os braços erguidos em um gesto de epifania, para saudar Epimeteu, enquanto uma quere alada paira sobre ela.

A mitóloga britânica Jane Ellen Harrison (1850-1928) argumentava que a versão de Hesíodo representava uma passagem do matriarcado para o patriarcado, na qual Pandora, originalmente uma deusa doadora, foi eclipsada e substituída pela figura alterada e diminuída de uma humana que traz a morte, não mais nascida da Terra, mas artefato e criatura de Zeus, o patriarca. O escritor Robert Graves radicalizou essa interpretaço, afirmando que "Pandora não é um mito genuíno, mas uma fábula anti-feminista que ele mesmo provavelmente inventou".

Referências Editar

  • Junito de Souza Brandão, Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega, Vozes, Petrópolis 2000.
  • Theoi: Pandora [1]

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