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Mapa do Tartaro.gif

Mapa do Submundo, combinação das descrições de Homero e Virgílio, por Carlos Parada (2000)

Nos mitos gregos, o Reino de Hades, também chamado Érebo, é o reino sinistro e brumoso que serve de morada a todas as sombras dos mortos.

Os mitógrafos tiveram várias concepções sobre a geografia do mundo dos mortos. Ora o localizavam no Extremo Ocidente, para além do Oceano, ora em um mundo subterrâneo. Concepções mais tardias reservaram as ilhas do Ocidente - Jardim das Hespérides, Ilhas Afortunadas ou Campos Elísios - aos heróis bem-aventurados, enquanto à maioria dos mortos era reservado o mundo subterrâneo propriamente conhecido como Hades ou Érebo e aos condenados o Tártaro, ainda mais profundo.

Concepção grega Editar

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A concepção de mundo da Odisseia, com o Reino de Hades no extremo Ocidente

A mais antiga descrição do Hades grego é encontrado no canto XI da Odisseia (cerca de 750 a.C.). O lugar é descrito como situado em uma margem do rio Oceano no extremo Ocidente, fim do mundo dos vivos. A primeira região do Hades compreende o Campo dos Asfódelos, onde as sombras dos heróis vagueiam desanimadas entre espíritos menores, que guincham entre eles como morcegos. Apenas as libações de sangue que lhes eram oferecidas no mundo dos vivos podiam despertá-los temporariamente para as sensações da vida humana. Ali, Odisseu reconhece as sombras de parentes e amigos, inclusive do herói Aquiles, que lhe diz:

Ah! Não tente consolar-me da morte, glorioso Odisseu; eu preferiria lavrar a terra a serviço de outrem, de um amo pobre, de subsistência minguada, a reinar sobre as sombras de todos os extintos. (da Odisseia, 11.488-491)

Odisseu vê também os tormentos de três personagens, Títio, Tântalo e Sísifo, que traíram a amizade dos deuses. Os únicos mortos poupados do Hades são aqueles que foram divinizados e passaram a viver com os deuses no Olimpo, Héracles e os Dióscuros.

Homero também cita quatro rios ou lagos do Hades, alguns deles associados a fontes e rios reais conhecidos dos gregos, que aparentemente supunham que eles teriam continuação no mundo dos mortos. O Estige ("odiosa, horrível"), era uma fonte na Arcádia e o Aqueronte (associado por etimologia popular ao grego akhos, "dor"), um rio no Epiro perto de um Oráculo dos Mortos, assim como o seu afluente Cocito ("grito de dor"). O quarto era o Piriflegetonte ("de chamas ardentes"). Esses nomes não estavam relacionados a qualquer ideia de punição dos mortos, mas sim, provavelmente, aos ritos funerais gregos.

Em épocas mais tardias, surgiram noções de recompensa e punição. Poetas descreveram um lugar chamado Elísio ou Ilhas Afortunadas, onde certas almas, escolhidas pelos deuses, tinham uma existência feliz após a morte. O lugar é descrito por Píndaro (476 a.C.) como um parque crepuscular onde os mortos se dedicam a passatempos atléticos e musicais, a vida ideal de um aristocrata grego. Habitariam essa região vários heróis, incluindo Aquiles e os tiranicidas atenienses de 510 a.C., Harmódio e Aristogiton.

Surgiu também a ideia de um abismo profundo no reino de Hades, o Tártaro, palco da punição dos Titãs, de gigantes como Títio e dos humanos que ofenderam seriamente aos deuses, como Tântalo, Sísifo, as Danaides e Íxion. A punição típica impõe a condenado suportar a frustração eterna de seus esforços ou de seus desejos.

É também em Píndaro que cita pela primeira vez o barqueiro Caronte, ao qual os mortos deviam pagar um óbolo, posto na boca do cadáver pelos parentes, para pagar a travessia do rio Estige, que marcava a fronteira do mundo dos mortos. Os que não dispusessem dessa moeda permaneceriam no mundo dos vivos como assombrações. Cérbero, o cão de guarda de Hades, permanecia na margem interior do Estige, impedindo as almas de sair e os vivos de entrar. Uns poucos personagens da mitologia grega conseguiram burlá-lo ou vencê-lo para se aventurar vivos no Reino de Hades, inclusive Héracles, Odisseu, Orfeu, Teseu, Pirítoo e Psique.

O orfismo e os hinos órficos, junto com a ideia da metempsicose, acrescentaram um quinto rio, o Lete ("esquecimento"), do qual as sombras bebiam antes de reencarnar, para esquecer sua existência no Hades. Estava relacionada a uma fonte do mesmo nome no oráculo de Trofônio, em Lebadia, na Beócia, da qual os consulentes bebiam para esquecer o profano (depois bebiam da fonte Mnemósine, "memória", para se lembrarem do oráculo sagrado.

O filósofo Platão descreveu um julgamento que aguardava cada sombra ao chegar ao Hades. Os juízes Minos, Radamanto e Éaco decidiam quais seriam destinadas ao Elísio, quais ao Hades e quais ao Tártaro[1].

Concepção romana Editar

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Viagem de Eneias aos Elísios, segundo Virgílio, de Andrea de Jorio (1825)

Em cerca de 20 a.C., Virgílio sintetizou e detalhou na Eneida (livro VI) as concepções gregas e romanas de sua época. Guiado pela Sibila de Cumas, Eneias vai ao mundo dos mortos ou Inferno, agora concebido como um mundo subterrâneo, passando pelo Averno, uma cratera perto de Cumas. Por sinédoque, o nome Averno pode ser usado para representar o conjunto do submundo governado pelos Inferi Dii, os deuses infernais romanos.

Os mortos entravam no submundo cruzando o Aqueronte com a ajuda do barqueiro Caronte, que cobrava um óbolo, uma pequena moeda posta na boca dos mortos pelos parentes. Aqueles que não traziam a moeda juntavam-se por cem anos na margem. O outro lado do rio era guardado por Cérbero, o cão de três cabeças. Depois de passar por ele, as sombras entravam na terra dos mortos para serem julgados. Para passar por sua vigilância, Eneias adormece Cérbero com bolos de mel impregnados de um sonífero.

Os cinco rios do Reino de Hades era o Aqueronte (dor), Cocito (lamentação), Flegetonte (fogo), Lete (esquecimento), e Estige (ódio). Este último formava a fronteira entre os mundos superior e inferior. Além disso, o Erídano cruzava os Campos Elísios.

No Lete ("Esquecimento"), as almas comuns se juntavam para apagar a memória da vida e na Mnemósine ("Memória", da qual bebiam os iniciados nos mistérios antes de reencarnar. Em frente ao palácio de Hades e Perséfone sentavam-se os três juízes do Submundo: Minos, Radamanto e Eaco, em um trívio (bifurcação) consagrado a Hécate, onde as almas eram julgadas para retornar aos Campos de Asfódelos se não eram más nem virtuosas, à estrada do Tártaro se eram ímpias ou más, ou enviadas ao Elísio para se juntarem aos heróis irrepreensíveis.

Concepção cristã Editar

Na mitologia cristã, o termo Hades foi usado como sinônimo da morada dos mortos ou Sheol, onde os mortos aguardam o Juízo Final em paz ou entre tormentos.

Notas Editar

  1. David Sacks, Oswyn Murray e Margaret Bunson, A dictionary of the ancient Greek world, Oxford University Press

Ver também Editar

Deuses ctônicos

Deuses-rios

Hades

Tártaro

Cérbero

Harpias

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